778 Tradição e identidade em Crônica de uma morte anunciada Fábio Belo (Faculdade de Direito Milton Campos) O romance Crônica de uma morte anunciada, de Gabriel García Márquez, parece brincar com a dialética mensagem x recepção, pelo menos de quatro formas. A primeira é sobre os sonhos cujo sentido supostamente premonitório não é captado: Plácida Linero, mãe de Santiago Nasar, não conseguira interpretar o sonho de seu filho. A segunda forma são as tentativas de Pedro e Pablo “avisarem” que iriam matar Santiago. Essa mensagem também não chega ao seu destinatário. Pode-se pensar também como a “mensagem da cultura” emitida pelo tabu da virgindade não é captada por Santiago. Nesse caso, de duas uma: ou Santiago não deflorou Ângela Vicário e por isso não “escuta” a mensagem de morte dirigida a ele ou ele a deflorou, mas, por alguma razão, desconhece o perigo que corre. A terceira forma está representada nas inumeráveis cartas que Ângela Vicário escreve a Bayardo San Román. Cartas nunca abertas por seu destinatário e, muitos anos após seu envio, devolvidas à remetente. Finalmente, pode-se perceber uma quarta forma através da qual mensagem e recepção são tratadas nessa obra de Márquez. Trata-se da própria estrutura narrativa do romance, que é construído sobre essa tensão: logo nas primeiras linhas o anúncio do assassinato é feito, criando um efeito suspensivo: sabemos que Santiago morrerá, mas só aos poucos o leitor vai entender como e por quê. Mesmo assim, o romance ainda deixa em aberto se foi mesmo Santiago Nasar