SANT'ANNA, Denise Bernuzzi de. Corpo e história. Cadernos de subjetividade. Núcleo de estudo e pesquisa da subetividade – Programa de estudo de pós-graduação em psicologia clínica – PUC/SP, 1995 (2), p. 243-266. CORPO E HISTÓRIA * Denise Bernuzzi de Sant'Anna ** História das mulheres, história das sensibilidades, história do corpo... no decorrer deste século, sobretudo a partir da década de 1970, história passou a ser um campo propício para o desenvolvimento de abordagens, problemas e objetos considerados até então de pouca importância ou inadequados à pesquisa científica 1 . Em vez de se limitar à narrativa das conquistas dos “grandes homens”, tratou-se de investigar a vida cotidiana de homens e mulheres comuns, examinar seus modos de amar, trabalhar, se divertir, suas práticas e representações corporais. Menos do que reconstituir o passado, seguindo uma narrativa linear dos fatos, como se fosse possível revelá-los tais quais eles ocorreram, tratou-se de colocar em questão as indagações e verdades do presente tanto quanto aquelas de outrora. A própria subjetividade ganhou uma espessura histórica, antes pouco evidente ao historiador. Desde então, a história não diz respeito somente às questões políticas. E estas deixaram de se referir exclusivamente ao funcionamento do Estado e às ações governamentais. A história tornou-se assim um dos campos privilegiados para o estudo da constituição do homem enquanto sujeito de si, da produção da subjetividade enquanto processo ao mesmo tempo cultural e político, que se transforma no curso do tempo e varia de acordo com as sociedades. Os trabalhos históricos da terceira geração da escola dos Annales, somados ao impacto dos estudos de Michel Foucault e à divulgação tardia das análises de Norbert Elias, contribuíram, cada qual a sua maneira, para dar legitimidade à idéia de que nossas atitudes, as mais banais, nossos valores, os mais caros, nossas intolerâncias e nossa sensibilidade são produzidos historicamente. Assim, se a antropologia já havia ensinado que as verdades de uma sociedade podem não fazer o menor sentido para uma outra, a história passou a analisar tais diferenças no tempo. Tarefa que não poderia ser realizada sem a comprovação de que mesmo a busca da verdade é um fato histórico, comprometido com o espírito de uma época. Talvez tenhamos uma idéia vaga sobre aquilo que somos e sobre aquilo que representamos no mundo em que vivemos. Mas o que move essa tendência da história, aqui rapidamente mencionada, é menos a ambição de responder à questão “quem somos nós” e muito mais a saber como foi possível tornar habitual, normal e adequado a nós certas práticas outrora inadequadas ou sem sentido. Trata-e, portanto, de fazer a história de nossos receios e de nossos desejos, daquilo que nos é familiar ou perigoso. Neste sentido, talvez fosse interessante começar por aquilo que possuímos de mais concreto e banal e que, ao mesmo tempo, não cessa de ser reconstruído e modificado ao longo dos anos. Ou seja, começar pelo corpo, tomando-o como fio condutor para o estudo da subjetividade, segundo uma perspectiva histórica. O que significa não apenas descobrir o quão diferentes são os corpos do passado, seus modelos de conduta e os valores a eles atribuídos, mas, principalmente, ter o privilégio de tornar estranho, nem que seja por * Este artigo resume algumas das idéias contidas em um trabalho mais amplo sobre a história do corpo, cuja publicação está prevista para o segundo semestre de 1996. ** Professora do Programa de Estudos Pós-Graduados em História da PUC-SP.