1 Por que é verdade que Sherlock Holmes é um detetive embora Sherlock Holmes não exista? Ou: sobre como é possível dizer a verdade sobre o que não existe (Esboço) Alexandre N. Machado alexandre.n.machado.ufpr@gmail.com UFPR Our craving for generality has [as one] source […] our preoccupation with the method of science. I mean the method of reducing the explanation of natural phenomena to the smallest possible number of primitive natural laws; and, in mathematics, of unifying the treatment of different topics by using a generalization. Philosophers constantly see the method of science before their eyes, and are irresistibly tempted to ask and answer in the way science does. This tendency is the real source of metaphysics, and leads the philosopher into complete darkness. I want to say here that it can never be our job to reduce anything to anything, or to explain anything. Philosophy really is “purely descriptive”. [Wittgenstein, Blue Book] 1 1. Introdução Façamos de conta que aqui ao meu lado está sentada uma mulher chamada Amanda. Amanda está ouvindo atentamente à minha palestra, pois se interessa muito pelo assunto que abordo nesse texto. Nesse momento ela me interrompe e pergunta: “Você está louco? Por que você está pedindo para fazerem de conta que eu estou aqui ouvindo atentamente à sua palestra? Não é evidente que estou aqui?” Eu então respondo: “Amanda, sinto muito, mas você não existe!” E eu poderia seguir indefinidamente com esse diálogo absurdo entre Amanda e eu. Parece correto dizer que há um sentido bem determinado de “existir” segundo o qual é verdade que Amanda não existe. Embora tenha sido descrita como uma 1 Minha tradução: “Nossa ânsia por generalidade tem [como uma] fonte […] nossa preocupação com o método da ciência. Tenho em mente o método de reduzir a explicação dos fenômenos naturais ao menor número possível de leis naturais primitivas; e, na matemática, de unificar o tratamento de diferentes tópicos usando-se uma generalização. Filósofos frequentemente têm o método da ciência diante de seus olhos e estão irresistivelmente tentados a perguntar e responder do modo como a ciência o faz. Essa tendência é a real fonte da metafísica e leva o filósofo para a completa escuridão. Quero dizer aqui que não pode nunca ser nossa tarefa reduzir qualquer coisa a qualquer coisa, ou explicar qualquer coisa. A filosofia é realmente ‘puramente descritiva’.”