137 n.8, v.3 verão de 2019 A REPRESENTAÇÃO DA AUSÊNCIA EM ARQUITETURA E URBANISMO: Espaço Público Teatro La Lira Roberta Krahe Edelweiss 1 Celma Paese 2 Resumo O artigo apresenta uma refexão teórica acerca da representação da ausência em arquitetura e urbanismo e desenvolve, como forma de fundamentação da refexão teórica apresentada, uma análise sobre o estudo de caso do Espaço Público Teatro La Lira situado em Ripoll/Catalunha e de autoria dos arquitetos Rafael Aranda, Carme Pigem y Ramón Vilalta – do escritório RCR Arquitectes – e do arquiteto Joan Puigcorbé Punzano – do escritório PUIGCORBÉ Arquitectes. O artigo tem como ênfase o processo de projeto arquitetônico e a estratégia projetual assumida pelos autores em sua confguração. Neste sentido, a análise do projeto parte das relações estabelecidas entre o material e o imaterial, tais como o meio ambiente construído e a memória do lugar. O aporte da desconstrução apresenta-se como instrumento de análise projetual a partir do reconhecimento da complexidade espaço-temporal contemporânea. Para tanto, apresenta-se uma fundamentação teórica a partir de Harvey Montaner e Benévolo – no tocante ao entendimento da cidade contemporânea – e de Derrida e Solis – no tocante à extensão do conceito de desconstrução a arquitetura e urbanismo. Reconhece-se no artigo a desconstrução como um instrumento válido para o entendimento da cidade contemporânea e das permanências e rupturas de seu meio ambiente construído. Palavras-chave: espaço público e Teatro La Lira, desconstrução e dialogia, projeto de arquitetura e urbanismo. Abstract The article presents a theoretical refection on the representation of absence in architecture and urbanism and develops, as a basis for the theoretical refection presented, an analysis on the case study of the La Lira Theater Public Space located in Ripoll / Catalonia and by the architects Rafael Aranda, Carme Pigem and Ramón Vilalta - from the RCR Arquitectes ofce - and the architect Joan Puigcorbé Punzano - from the PUIGCORBÉ Arquitectes ofce. The article emphasizes the architectural design process and the design strategy assumed by the authors in its confguration. In this sense, the analysis of the project starts from the relations established between the material and the immaterial, such as the built environment and the memory of the place. The contribution of deconstruction is presented as an instrument of design analysis based on the recognition of the contemporary space-time complexity. Therefore, a theoretical basis is presented, based on Harvey Montaner and Benevolo, regarding the understanding of the contemporary city, and of Derrida and Solis, regarding the extension of the concept of deconstruction to architecture and urbanism. The article recognizes the deconstruction as a valid instrument for the understanding of the contemporary city and its permanences and ruptures. Keywords: La Lira Theater and the Public Space, deconstruction and dialogy, architectural and urban design. 1 Doutora em Projetos Arquitetônicos pela ESTAB/UPC. Coordenadora e Docente do PPGAU-Programa de Pós-Graduação – Mestrado em Projeto de Arquitetura e Urbanismo da FAU UNIRITTER. Porto Alegre Brasil. Email robertaedelweiss@gmail.com 2 Doutora em Arquitetura. Doutora em Arquitetura pelo PROPAR/UFRGS. Docente do PPGAU-Programa de Pós-Graduação – Mestrado em Projeto de Arquitetura e Urbanismo da FAU UNIRITTER. Porto Alegre Brasil. Email celmapaese@gmail.com Introdução Cidade e arquitetura, sujeitos à ação do tempo e entendidos a partir da complexidade temporal refetida em permanências e rupturas no tecido urbano, carregam em si valores de memória e história. A partir da complexidade entre passado e presente no meio ambiente construído, revelam-se valores culturais que, por uma valorização coletiva do patrimônio construído, são motivo de preservação na sociedade contemporânea. O projeto arquitetônico, em sua abstração e a partir da complexidade temporal da cidade, atua como um instrumento de diálogo entre presente e passado. Mesmo a partir da premissa da superação temporal, onde a obra arquitetônica será sempre passado, por sua cronologia ao ser confgurada antes do ato de habitar propriamente dito, apresenta-se a relação complexa entre presença e ausência quanto postos em diálogo diferentes tempos revelados a partir da abstração abertos ao porvir. A estratégia projetual adotada no projeto arquitetônico, capaz de presentifcar do passado, tem especial interesse no presente artigo. Entende-se, neste sentido, a experiência do habitar a partir do meio ambiente histórico e social, como um acontecimento. A abordagem de arquitetura e urbanismo sob a ótica da desconstrução traz signifcado ao entendimento do meio ambiente construído como acontecimento. O exemplo do Espaço Público Teatro La Lira, na cidade catalã de Ripoll, na Catalunha, ilustra uma estratégia projetual contemporânea no que tange a relação dialógica entre o novo e o existente. Parte-se do pressuposto do reconhecimento da importância em preservar a identidade, a cultura e a memória na cidade contemporânea, e da incidência do gesto da preservação do patrimônio cultural. A partir deste pressuposto é possível observar diferentes estratégias de conservação da memória empregadas ao projeto arquitetônico. O exemplo do Teatro La Lira revela o projeto, neste sentido, entendido como resposta ao habitar em sua complexidade de obra arquitetônica e em consonância da valorização da memória. Neste sentido, a obra apresentada é interessante objeto de investigação do projeto arquitetônico. O artigo apresenta uma refexão teórica acerca da representação da ausência em arquitetura e urbanismo e desenvolve, como forma de fundamentação da refexão teórica apresentada, uma análise sobre o estudo de caso do Espaço Público Teatro La Lira. O artigo tem como ênfase o processo de projeto arquitetônico e a estratégia projetual assumida pelos autores em sua confguração. Neste sentido, a análise do projeto parte das relações estabelecidas entre o material e o imaterial, tais como o meio ambiente construído e a memória do lugar. A Arquitetura como Acontecimento e o Valor de Presença Entre o fnal do século XIX e o princípio do século XX se consumou a grande transformação ao abandonar-se paulatinamente a mimeses da realidade e ao buscar novos tipos de expressão no mundo da máquina, da geometria, da matéria, da mente e dos sonhos, com o objetivo de romper e diluir as imagens convencionais do mundo em formas completamente novas. Os recursos de transformação foram os mais diversos mecanismos que possui a abstração como suplantação das mimeses nas artes representativas: invenção, conceptualização, simplifcação, justaposição, fragmentação, interpretação, simultaneidade, associação ou collage. (MONTANER, 1997, p.9) A colocação de Montaner (1997) ressalta a transformação da arquitetura como expressão de um contexto histórico ao abandonar as mimeses em deferência aos mecanismos de projetação fundamentados na abstração. Rompendo com as artes representativas, a arquitetura do Séc. XX assume o seu papel de intérprete da contemporaneidade, ao priorizar em sua linguagem as interpretações formais das novas tecnologias da era da máquina. Benévolo (2012) contribui com esta colocação atribuindo às grandes mudanças de organização produtiva as transformações na vida cotidiana dos homens. São as grandes revoluções as responsáveis por saltos demográfcos e consequente reorganização do espaço em função de uma nova organização. O reconhecimento