111 No ventre do monstro: Leviathan, Yube e Neto Els Lagrou "No Brasil todo mundo é índio, exceto quem não é." Eduardo Viveiros de Castro As obras de Ernesto Neto impressionam pela grandeza e suave tensão, pela leveza que brinca com a gravidade, um dualismo em permanente estado de desequilíbrio. Seus tentáculos gigantes, de cor branca ou pastel, que às vezes assumem o tamanho dos templos à cuja arquitetura aderem viscosamente, seduzem pela delicada transparência e maleabilidade, pelas formas quase vivas que envolvem, cativam, acolhem. Com Neto, vida e arte se interpenetram e comungam de modo compenetrado, sensual e sempre delicado. As gigantescas criaturas, chamadas pelo artista de bichos, naves ou ocas, são corpos-espaços, seres biomórfcos que adentramos. Suas peles esticadas englobam outras formas, que lembram órgãos e células, formas elementares da vida sempre em relação. São pesos, protuberâncias e cavidades agindo uns sobre os outros, exalando cheiros de cravo, açafrão da terra, cominho, pimenta e gengibre, pingentes multissensoriais que convidam a pessoa a tocar, a cheirar. Quando pela primeira vez me deparei ao vivo com uma obra de Neto, no grande hall de entrada do 43º Salón (inter)Nacional de Artistas de Medellín, Colômbia, em novembro de 2013, fui imediatamente capturada, seduzida pela imponente e complexa delicadeza da escultura. A peça, lanavemadremonte (2013), era toda branca, uma longa nave-tenda suspensa, de tecido translúcido, sustentada por elegantes tentáculos-pernas de meia e tubo de poliamida, também brancos, que terminavam em pesados pés ovais, recheados com areia e bolas de borracha. Dentro da nave pendiam alguns pingos de meias recheadas com bolinhas de isopor, cravo e lavanda. A tenda-nave-montanha era suportada por fnos tubos de alumínio. Estava montada a armadilha de Neto, um corpo-paisagem, esperando silenciosamente por En el vientre del monstruo: Leviathan, Yube y Neto “En Brasil todo el mundo es indio, excepto quien no lo es.” Eduardo Viveiros de Castro Las obras de Ernesto Neto impresionan por su grandeza y suave tensión, por la ligereza que juega con la gravedad, un dualismo en permanente estado de desequilibrio. Sus tentáculos gigantes de color blanco o pastel, que a veces adquieren el tamaño de los templos a cuya arquitectura se adhieren viscosamente, seducen por su delicada transparencia y maleabilidad, por sus formas casi vivas que envuelven, cautivan, acogen. Con Neto, vida y arte se interpenetran y comulgan de modo compenetrado, sensual y siempre delicado. Las gigantescas criaturas, que el artista denomina “bichos”, “naves” u “ocas”, son cuerpos-espacios, seres biomórfcos en los que nos adentramos. Sus pieles estiradas engloban otras formas, que evocan órganos y células, formas elementales de la vida siempre en relación. Son pesos, protuberancias y cavidades que actuan unos sobre otros, exhalando olores de clavo, curcuma, comino, pimienta y jengibre, colgantes multisensoriales que invitan a las personas a tocar, a oler. Cuando me deparé por primera vez ante una obra de Neto en vivo, en el gran hall de entrada del 43º Salón (inter)Nacional de Artistas de Medellín, Colombia, en noviembre de 2013, fui inmediatamente capturada, seducida por la imponente y compleja delicadez de la escultura. La pieza, lanavemadremonte (2013), era toda blanca, una ancha nave-tienda suspendida, de tejido translucido, sostenida por elegantes tentáculos-piernas de media velada y tubos de poliamida también blancos, que acababan en pesados pies ovalados, rellenos de arena y bolas de goma. Dentro de la nave pendían algunas gotas de medias rellenas de bolitas de corcho blanco, clavo y lavanda. La tienda-nave- montaña estaba sujeta por fnos tubos de aluminio. Estaba montada la trampa de Neto, un cuerpo- paisaje esperando silenciosamente a su presa para