177 In: Inês Signorini (org.). Significados da inovação no ensino de Língua Portuguesa e na formação de professores. Campinas (SP): Mercado de Letras, 2007, v. , p. 211-228. Letramento e inovação no ensino e na formação do professor de Língua Portuguesa Inês Signorini * 1. Introdução O objetivo neste capítulo é o de sistematizar resultados de análise de dados relacionados à didatização de saberes acadêmico-científicos sobre leitura/escrita na pós-alfabetização e na formação regular e continuada de professores de Língua Portuguesa 1 . A relação desses saberes com a demanda de inovação no ensino da língua no país tem se estabelecido nas/pelas reformas educacionais desde a década de 1970 (Aparício, 1999; Pietri, 2003; Dornelles, neste volume). Todavia, pesquisas anteriores mostram que a didatização é, na verdade, um processo de transformação desses saberes pelas práticas institucionais (desde a confecção de documentos oficiais, currículos e materiais didáticos até o desenvolvimento de atividades em sala de aula) em função de variáveis contextuais específicas (onde e quando se dá o processo de didatização; em que condições; com que objetivo; para qual público-alvo; por quem; como, etc), o que faz com que produzam impactos diferenciados e nem sempre avaliados como inovadores nos contextos estudados (cf. Kleiman e Signorini, 2000; Rafael, 2001; Santos, 2001; Silva, 2003; 2006; Bunzen, 2005; Signorini, 2005a). A questão trazida por esses trabalhos e que pretendemos abordar aqui é de ordem teórico- metodológica e diz respeito à modelização, no campo aplicado dos estudos da linguagem, do que se costuma designar genericamente por variáveis contextuais escolares, ou de contextualização na escola, da inovação trazida ou inspirada pela ciência lingüística e sancionada por documentos oficiais. E para melhor compreender tais variáveis é preciso melhor compreender a natureza e o funcionamento das práticas que constituem justamente o contexto escolar, particularmente as que constituem o letramento escolar, aqui compreendido como conjunto de práticas sociotécnicas * Professora do Programa de Pós-graduação em Lingüística Aplicada do IEL/UNICAMP. 1 Os dados que sustentam a discussão foram gerados no âmbito do Projeto Integrado Práticas de escrita e de reflexão sobre a escrita em contextos de ensino (CNPq n.º 520427/2002-5; Auxílio FAPESP n.º 2002/11837-4), via observação e produção de documentação etnográfica em contextos naturais de ensino e formação de professores e via participação na elaboração e na implementação de projetos pedagógicos para o ensino público fundamental (cf. Signorini, 2005a; 2005b; 2006a; 2006b).