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CUIDADOS COM PICOS ESPÚRIOS NO USO DE ESPECTROSCOPIA DE
FLUORESCÊNCIA DE RAIOS X PARA A ANÁLISE DE PEÇAS METÁLICAS PRÉ-
HISPÂNICAS DO MUSEU DE ARQUEOLOGIA E ETNOLOGIA DA USP
Augusto Câmara Neiva (*); Jérémie Nicoläe Dron (*); Rocio del Pilar Bendezú Hernández (*); Hercílio Gomes de
Melo (*); Sílvia Cunha Lima (†); (*) Departamento de Engenharia Química da Escola Politécnica da USP;
(†) Laboratório de Conservação e Restauro do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP.
Introdução
A espectroscopia de fluorescência de raios X é uma
técnica analítica elementar não-destrutiva que permite
a análise de ligas, pigmentos, rochas, cerâmicas e
inúmeros outros materiais que compõem o acervo
cultural da humanidade, tornando-se assim uma
ferramenta importante, em especial se realizada in situ
[por exemplo, ref. 1], para identificação de materiais e
de seus eventuais produtos de corrosão, para
determinação de origem, processamento e uso,
compreensão de seus processos de deterioração,
definição de métodos de preservação e restauração,
autenticação, etc.
Um espectrômetro semi-portátil de fluorescência de
raios-X foi montado com o objetivo principal de
analisar ligas e produtos de corrosão de peças
artísticas, etnológicas e arqueológicas. Optou-se por
uma fonte de raios X de tungstênio, com 60 kV, que
permite a análise de elementos pesados através de suas
linhas K, em detrimento de uma maior eficiência para
os elementos leves. O instrumento foi usado para a
análise qualitativa de ligas e ocasionais produtos de
corrosão de diversas peças metálicas pré-hispânicas do
Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de
São Paulo. O presente trabalho discute principalmente
os cuidados tomados para a interpretação dos espectros
obtidos, com especial atenção à identificação de
radiação espúria gerada pelo colimador de Zr do
detector [ref. 2] e pelo colimador primário de chumbo.
Materiais e Métodos
O espectrômetro consiste basicamente de um tubo
de raios-X com anodo de W, com saída máxima de
60 kV e 1.5 mA, e um detector de raios-X tipo Si-drift
com sistema Peltier de refrigeração, configurado para
energias de até cerca de 34 keV. Foi instalado um
colimador de chumbo para o feixe incidente, com
diâmetro interno de 4 mm, que reduz o ângulo original
do feixe de 8
o
para 2
o
. Para o detector, que possui
originalmente um colimador de zircônio, foram feitos
dois colimadores adicionais com diâmetro interno de
1,3 mm, um deles de alumínio e o outro de chumbo.
Eles podem ser usados simultanea ou separadamente.
Na análise das peças, foram utilizados diferentes
arranjos experimentais para verificar se os picos de Zr
e Pb observados eram provenientes apenas dos
colimadores ou também das peças. Deu-se atenção
também à identificação de picos-soma e picos-escape.
Para cada peça, foram feitos ensaios em diferentes
regiões.
Para determinação das áreas dos picos, utilizou-se o
software QXAS-AXIL. No caso de picos-soma, a área
foi determinada por meio de rotina desenvolvida em
planilha Excel.
Resultados
Ensaios iniciais: detecção de pequenos teores
Para avaliarmos a qualidade dos picos obtidos para
teores relativamente baixos de elementos, analisamos
uma liga Pr
14
Fe
79,9
B
6
Nb
0,1
. Apesar do baixo teor de Nb
na amostra, o espectro obtido apresenta os picos Kα e
Kβ deste elemento perfeitamente delineados, como
mostra a Figura 1 (os picos de Zr presentes não provêm
da amostra, mas sim do detector, como será discutido
adiante).
Fig. 1 Espectro de liga Pr
14
Fe
79,9
B
6
Nb
0,1
(detalhe do
pico de Nb)
Ensaios iniciais: detecção de elementos leves
A opção adotada para a energia e o material do alvo
do tubo de raios X levou em conta principalmente a
possibilidade de medição de linhas K de elementos
mais pesados, com sacrifício da medição dos elementos
mais leves, que seriam pouco excitados pelo feixe
utilizado. A realização de medidas ao ar (e não, por
exemplo, sob vácuo ou sob hélio) prejudica ainda mais
a detecção dos elementos leves, devido à atenuação
provocada pelos gases presentes. Assim, procuramos
verificar a qualidade dos picos obtidos para elementos
leves como Al, S e Cl. Um resultado é apresentado na
Figura 2, que traz o espectro de uma liga de Al.
Podem-se observar claramente os picos Kα e Kβ deste
elemento.
Ensaios iniciais: diferenciação de picos de elementos
minoritários vizinhos na Tabela Periódica
Para a análise das ligas metálicas arqueológicas ou
históricas, pode ser importante identificar pequenos
teores de alguns metais ou semimetais 3d e 4d, como,
por exemplo, As (Z=33), Se (Z=34), Sn (Z=50) ou Sb
(Z=51), que freqüentemente podem ser usados para
identificar a origem dos minerais e a técnica de
fabricação. Para a determinação das áreas dos picos de
Revista Brasileira de Arqueometria, Restauração e Conservação. Vol.1, No.4, pp. 149 - 154 Copyright © 2007 AERPA Editora