Uma definição de narrativa histórica para o Dicionário do Ensino de História Itamar Freitas Profhistória/UFS itamarfreitasufs@gmail.com Guardemos essa definição: narrativa é o principal elemento dos modos de representar os atos humanos, a exemplo da história e da poesia. Esse representar, mediado pela narrativa, é inerente ao ser humano e serve para conhecer o mundo e experimentar prazer. Uma narrativa (intriga) está constituída quando dispomos acontecimentos indicadores de mudança de sorte (do sucesso ao fracasso e vice-versa), com o conhecimento ou a ignorância dos seus atores, em um lapso de tempo apreensível pela memória e estruturado em princípio, meio e fim. Aí estão as lições da Poética (350 B.C.E) que tanto incomodam os historiadores cientificistas desde meados do século XIX. Aristóteles preferia a poesia à história. A primeira representava falas e atos possíveis (verossimilhantes ou causais) de determinado grupo de pessoas (era universal). A segunda representava falas e atos de determinada pessoa (era individual). Ambas dependiam da narrativa para mobilizar as emoções do público. Aqui, não vamos tocar nos incômodos, explorados à exaustão nas últimas quatro décadas. Mantenhamos a definição aristotélica (que não conservava os sentidos de história partilhados por nós) apenas como um tipo operacional. Isso porque é tolice omitir atores, causas e mudança de sorte, por exemplo, nas histórias da historiografia brasileira, alemã e francesa, expressos nas transições de um modo de escrita da história para outro, como da escola metódica para a nova história cultural ou do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro para os cursos de pós-graduação em história. É ingênuo ignorar o centenário apelo ao começo, meio e fim nas escritas mistas de história da “Humanidade”, da “Civilização” ou do “Ocidente” que os autores dos livros didáticos de história têm conservado, seja Hegel, seja Marx a orientar a hegemônica cosmogonia cristã. É um disparate, por fim, acreditar que a extensa Matriz do Exame Nacional do Ensino Médio [p.174] privilegia a compreensão do passado apenas via estrutura, quando a teleologia – “das cavernas ao terceiro milênio” – dá o tom dos currículos, desde 2009, restringindo o desenvolvimento de habilidades de pesquisa e desprezando a sensata previsão de um tempo apreensível pela memória e da possibilidade de experimentar prazer. Pensamos ser mais vantajoso observar como alguns pesquisadores de orientação vária têm manuseado as categorias história, desenvolvimento, mente, sujeito e ideologia para justificar o uso da narrativa do ensino de história. Jörn Rüsen entende a narrativa como principal competência humana de produção de sentido. E produzir sentido é atribuir significado à vida, sob o ponto de vista individual e social, principalmente, diante das mudanças às quais estão submetidas as pessoas durante a existência. Narrar é, pois, “um procedimento mental” que articula “interpretação do passado com um entendimento do presente e as expectativas de futuro”. A competência narrativa reúne, assim, quatro habilidades mentais que podem