PROJETO DE PESQUISA: O SEMINÁRIO SERÁFICO SANTA MARIA DOS CAPUCHINHOS E AS IDENTIDADES SACERDOTAL E FRANCISCANA NA TRANSIÇÃO DO CONCÍLIO VATICANO II (1953-1987) Ateliê de História UEPG, 4(1): 173-184, 2016 173 Resumo: Nosso objetivo nesta pesquisa é perceber de que ma- neira as tensões cotidianas no Seminário Seráfco Santa Maria expressam as difculdades na reformulação das identidades, sacerdotal e franciscana, na im- plementação das determinações do Concílio Vaticano II. A questão da identidade é um campo de discussão amplamente debatido atualmente, que o presente pro- jeto visa inserir-se, tendo como objeto de estudo as identida- des sacerdotal e franciscana no ambiente do Seminário Santa Maria dos Capuchinhos de Irati/ PR no período de 1953 a 1987. Concebido para ser um centro de formação aos candidatos a vida presbiteral da Ordem dos Capu- chinhos no Paraná, segundo o modelo tridentino, com as deter- minações do Concílio vaticano II, houve uma mudança no cenário que levou a um deslocamento das identidades em questão. As tensões surgidas entre os mode- los (trindentino e do vaticano II), a recepção do mesmo pelos Ca- puchinhos no Paraná e sua imple- mentação no espaço especifco da formação sacerdotal e francis- cana são o intuito deste trabalho. INTRODUÇÃO O propósito desta pesquisa insere-se num campo de discussão que vem sen- do extensamente debatido atualmente que é a questão da identidade. Como bem frisou Stuart Hall em suas pesquisas, existe atualmente uma “explosão dis- cursiva em torno do conceito de identidade” (2014, p.103). Isso porque chegou- -se atualmente a conclusão que a identidade não é dada, não está geneticamente defnida, mas, como ele explica algo formado, ao longo do tempo, através de processos inconscientes, e não algo ina- to, existente na consciência no momento do nascimento. Existe sempre algo “ima- ginário” ou fantasiado sobre sua unidade. Ela permanece sempre incompleta, está sempre “em processo”, sempre “sendo formada”. As partes “femininas” do eu mas- culino, por exemplo, que são negadas, permanecem com ele e encontram expressão inconsciente em muitas formas não reconhecidas, na vida adulta. [...]. A identidade surge não tanto da plenitude da identidade que já está dentro de nós como indivíduos, mas de uma falta de inteireza que é “preenchida” a partir de nosso exterior (HALL, 2002, p. 38-39). Na modernidade, esta identidade esta sendo descentrada, fragmentada, des- locada. Isso implica dizer que há uma crise de identidade, porque uma “identidade plenamente unifcada, completa, segura e coerente é uma fantasia” (Hall, 2014, p. 12). Este deslocamento da identidade é uma percepção compartilhada tam- bém por outros autores como Giddens (2002), Castells (1999), Bauman (2005). De acordo com Giddens (2002), a auta-modernidade, tem infuenciado for - temente esta movimentação da identidade, de maneira mais veloz e até trau- mática, porque o sujeito tem uma infnidade de opções nesse jogo dialético de construção e reconstrução identitária. Nas culturas tradicionais tudo permanecia inalterado, geração após geração, e a novidade era sempre ritualizada. Já na so- ciedade da auta-modernidade, a identidade precisa ser “explorada e construída como parte de um processo refexivo de conectar mudança pessoal e social” (GIDDENS, 2002, p. 37). Já não é mais um processo natural, coletivo, mas evoca a participação do individuo que tem papel preponderante nesta construção. A respeito da construção de identidade, Castells (1999, p.23) propõe que devemos, ao fazer esta constatação, nos perguntar como, a partir de quê, por quem e para que essa construção ocorre. Muitos fatores entram como tijolos desta construção. Segundo ele A construção de identidades vale-se da matéria prima fornecida pela história, ge- ografa, biologia, instituições produtivas e reprodutivas, pela memória coletiva e por fantasias pessoais, pelos aparatos de poder e revelações de cunho religioso (CASTELLS, 1999, p. 23) Palavras - chave: Identidades, Capuchinhos, Seminário Santa Maria, Vaticano II Edson Claiton Guedes 1 Edson Armando Silva 2 Ateliê de História 1 Mestrando no programa de pós-graduação em História da UEPG/PR. E-mail: nosdek@gmail.com 2 Orientador. Doutor em História (UFF), Professor do Depto. de História e do Mestrado em História (UEPG).