Capítulo 12. In: Parque Indígena do Xingu: Saúde, Cultura e História. Ed. Terra Virgem, O Agente Indígena de Saúde no Parque Indígena do Xingu: Reflexões. 1 Sofia Beatriz Machado de Mendonça 2 “O índio tem que aprender a trabalhar na área de saúde para não ficar dependendo do homem branco. O branco não tem o costume de ficar muito tempo na área. O índio tem costume diferente do branco. Antigamente, a saúde era mais fácil porque tudo era natural. Hoje, as coisas são contaminadas: água, peixe, ar e até as aves. Então, as coisas estão mais difíceis. Antigamente, a gente curava os pacientes com ervas e raízes do mato, e os pajés também ajudavam. Essa vida não era tão difícil, era mais fácil.” Aturi Kaiabi, professor da aldeia Tuiararé – PIX. A formação de agentes indígenas de saúde em nosso país já tem uma história acumulada no decorrer das últimas décadas e demanda reflexões. São vários os aspectos que merecem uma discussão aprofundada. A figura do agente indígena de saúde vem sendo construída de maneira extremamente heterogênea, em geral assumindo um caráter polivalente e de perfil indefinido, tomando a forma do espaço vazio deixado pelo sistema oficial de saúde. Concebido como um elo entre os serviços de saúde e a comunidade indígena, como estratégia de ampliação da cobertura da assistência médica e, ao mesmo tempo, como estratégia do movimento indígena em busca de uma inserção no mercado de trabalho e algum controle com relação às questões de saúde-doença, o agente de saúde está envolto em uma série de conflitos. Ao longo da história de contato foi se configurando um espaço de interlocução entre a sociedade nacional e as sociedades indígenas. Junto com as frentes de contato e pacificação dos indígenas sempre esteve presente a medicina do branco com seus remédios e seu poder quase “sobre-humano”. Desde os primeiros contatos com a sociedade envolvente, os índios se depararam com vários problemas, entre eles o enfrentamento das doenças, principalmente aquelas que foram introduzidas pelo mundo ocidental. As doenças levaram vários povos ao extermínio e ainda hoje abalam profundamente a estrutura social das comunidades indígenas. Na realidade, a questão da sobrevivência destes povos se colocava de forma muito concreta. E a intervenção médica nestes casos respondia a uma ética que tratava e trata, ainda hoje, de salvar vidas. Todos os grupos têm uma grande suscetibilidade às doenças infecto-contagiosas que justificava a medicalização desde os primeiros contatos. 1 Este texto compõe o Capítulo 12. In: Parque Indígena do Xingu: Saúde, Cultura e História. Roberto G. Baruzzi e Carmen Junqueira (orgs.). Terra Virgem Editora, São Paulo, 2005. 2 Coordenadora do Projeto Xingu – Programa de Extensão Universitária EPM/Unifesp.