BOLETIM REDE AMAZÔNIA ANO 2 Nº 1 2003 83 1. Introdução No final dos anos 80 as chamas nas florestas da Ama- zônia tornaram-se mundialmente um símbolo para o fracasso de um modelo de desenvolvimento que visa, desde o fim da II Guerra Mundial, a transfor- mação de culturas “tradicionais” em sociedades mo- dernas, seguindo o exemplo dos países industriali- zados. No Brasil, a implementação de ações pautadas por teorias sobre construção de instituições moder- nas, estruturas de produção industrializada e “mer- cado” reflete-se na colonização descontrolada da Amazônia. Isto tem mostrado os limites de aborda- gens generalizadas que desconsideram a heteroge- neidade social e natural no espaço. Em vez da pros- peridade esperada, os “pólos de desenvolvimento” (Perroux, 1964), criados primordialmente durante as ditaduras militares, são caracterizados pela miséria e graves problemas ambientais. Na busca de respostas para a crise do modelo de desenvolvimento surgiu o termo “desenvolvimento sustentável”. Mais do que um conceito, este paradig- ma recebe hoje alto reconhecimento, principalmen- te desde a Conferência das Nações Unidas pelo Meio Ambiente e Desenvolvimento, no Rio de Janeiro, em 1992 (ECO ‘92), com participação de 170 países. Nesta época, a Amazônia ganhou novamente re- levância mundial, assumindo um significado sim- bólico, desta vez como o “pulmão do mundo”. O entendimento que as classes políticas conservadoras têm sobre a floresta enquanto espaço “não produti- vo”, que precisa ser transformado para atividades econômicas, foi questionado por movimentos am- bientais e sociais. Os “Povos das Florestas”, incluindo grupos indígenas, ribeirinhos, seringueiros, entre ou- tros, antes esquecidos, passaram a ser considerados como sociedades sustentáveis. Como tal, serviam de exemplos para os “povos desenvolvidos” que va- lorizam a acumulação infinita de bens materiais, cau- sando, assim, pressões elevadas sobre os recursos naturais. Influenciadas por estas idéias, instituições in- ternacionais dos países do G7 criaram, em 1991, o Programa Piloto para a Conservação das Florestas Tro- picais Brasileiras, que tem como objetivo fortalecer políticas públicas para a preservação ambiental e o desenvolvimento sustentável na Amazônia, este último baseado nas experiências dos “povos da floresta”. Por outro lado, o governo brasileiro desenvolveu nos anos 90 novos planos para a construção de infra- estrutura terrestre e fluvial (Avança Brasil) na Ama- zônia. Nestas iniciativas reflete-se, ainda que de for- ma modificada, o velho conceito de modernização enquadrada na globalização econômica e no neoli- beralismo. Muitos especialistas temem que a imple- mentação dessa política de infra-estruturas provoque os mesmos erros do passado (Laurance et al., 2001). Neste clima de tensão entre a globalização e a sustentabilidade, ONGs como o WWF (Fundo Mun- dial para a Natureza), Greenpeace e Friends of the Earth elaboraram novas estratégias políticas, aban- donando campanhas de confrontação e buscando soluções pragmáticas junto com o setor privado e instituições governamentais (Zhouri, 1998). Um exemplo das tentativas de conciliação dos interesses sociais, ambientais e econômicos no setor madeireiro é a criação do FSC – Forest Stewardship Council (Conselho de Manejo Florestal), em 1993. A tarefa do FSC é definir princípios e critérios globais para a certificação de florestas ‘bem manejadas’. Para ga- rantir o sucesso econômico do FSC, o WWF esta- beleceu uma rede global de comércio de madeira (Global Forest and Trade Network), que é um fator importante na expansão de florestas certificadas pelo FSC. Essas já superaram uma área de 25 milhões de hectares em nível mundial. A certificação florestal vem ganhando relevância em estratégias políticas para implementar o chamado “desenvolvimento sustentável” entre as várias ins- tituições nacionais e internacionais, como o Banco POLÍTICAS PÚBLICAS PARA UM DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL NA AMAZÔNIA O PAPEL DA “VOCAÇÃO FLORESTAL” KLEMENS LASCHEFSKI 1 DOUTOR EM GEOGRAFIA UNIVERSIDADE DE HEIDELBERG/ALEMANHA 1 Contato: Rua Gumercindo Cou- to e Silva 284 / 201, Bairro Itapoá, Belo Ho- rizonte CEP 31710-050, e- mail: klemens. laschefski@gmx.net