285 Gramática Histórica, de Liberto Cruz: literatura e pensamento Carlos Nogueira Cátedra José Saramago | Universidade de Vigo Em 1971, saía no Funchal um livro de Liberto Cruz (1935), Gramática Histórica, que se propunha desconstruir paródica e satiricamente a linguagem e a ideologia do regime salazarista. A obra, como nos lembra o autor na edição de 2007, esgotou numa semana. Quando a crítica ofcial se apercebeu do registo subversivo dos textos, já todos os exemplares estavam nas mãos de «atentos e desobedientes leitores» (Cruz 2007: 10), como se lê no apontamento introdutório da edição de 2007, assinado por Liberto Cruz, que opta por um título muito oportuno, porque abrange os leitores que necessitam da nota para compreenderem o contexto em que surgiu o livro, mas também visa aqueles leitores que conhecem já a história deste livro: «Nota desounecessária dos autores» (entenda-se: «desnecessária», «ou necessária»), porque na primeira edição o autor oculta a sua identidade sob um pseudónimo: Álvaro Neto, que, em 1966, no segundo e último caderno da Poesia Experimental, aparece como autor de vários poemas. Esta Gramática Histórica, escrita entre 1962 e 1966, «revisita categorias e fór- mulas de uma gramática tradicional, utilizando, porém, práticas da Poesia Visual e Experimental do século XX que revolucionaram a literatura e as artes visuais no contexto português e no contexto internacional», nas palavras de João Fernan- des, no texto, que acompanha esta nova edição, «A propósito desta nova edição da Gramática Histórica». O livro, organizado ironicamente em quatro partes, que correspondem às áreas fundamentais da linguística (Fonética, Morfologia, Sintaxe, Semântica), apoia-se nesse movimento de dissecação e reconstrução de Portugal e da sua gramática ofcial. Liberto Cruz associa, desmonta, recompõe palavras, destaca e combina grafe- mas, cria uma arrojada sintaxe visual e signifcante: propõe uma nova gramática, um novo discurso, um novo pensamento, novos comportamentos e novas atitudes. Cada texto, do mais breve, como as «Frases idiocráticas» («É um grande prazer estar entre esta gente calma, paciente, ordeira, resignada, crente, esta gente bem portu- guesa»; «Um verdadeiro português contenta-se com um quarto de pão e uma sardi- nha assada» (Cruz 2007: 82-83) ou os «Provérbios» («Emigrar ou não emigrar/ eis a questão»; «É preciso trocar o certo pelo incerto»; ibid.: 108-109), ao mais longo,