1 Narrativas indígenas, aviamento e condição colonial no Noroeste Amazônico Márcio Meira 1 Resumo: Este artigo apresenta, a partir da transcrição de narrativas orais de quatro indígenas Baniwa, Baré e Tukano do alto rio Negro, entrevistados em 1971 e 1991, uma análise sobre a importância estrutural do sistema de aviamento para os povos nativos do Noroeste Amazônico. Numa perspectiva de longa duração, o sistema de aviamento é apresentado como uma “condição colonial” que emerge do processo histórico numa região de colonização antiga na Amazônia, tendo como contraponto o papel ativo dos indígenas na elaboração de suas políticas de memória e de autonomia política. 1. Introdução O Noroeste Amazônico é um território peculiar da Amazônia. Compreendido principalmente pelas terras banhadas pela bacia hidrográfica do rio Negro, integra também os formadores do alto rio Orinoco e do alto rio Japurá. Abrange uma vasta área de aproximadamente 1,3 milhões de km², sendo que 56,6% dela está no Brasil, 27,3% na Colômbia e 16,1% na Venezuela (SCOLFARO et al., 2013). Esses três países compartilham atualmente o Noroeste Amazônico após um longo processo de colonização iniciado no século XVI, caracterizado doravante pela constituição nos séculos XVII e XVIII dos projetos coloniais ibéricos no norte da América do Sul, e seguido pela construção das independências políticas e o desenvolvimento desses Estados nacionais a partir do início do século XIX e até hoje. As linhas de fronteira política que separam esses países foram definitivamente estabelecidas ao longo da primeira metade do século XX. No seu aspecto físico, o rio Negro é sem dúvida o principal componente natural desse território. Com 2.230 km de comprimento, trata-se do maior afluente do rio Amazonas pela margem esquerda e forma a maior bacia de águas pretas do mundo, com uma área de 691 mil km². Nasce na Colômbia com o nome de Guainía, mudando para Negro ao passar pelo canal Cassiquiari, que o liga ao rio Orinoco, nas proximidades de Cucuí, na tríplice fronteira. O Negro deságua próximo à cidade de Manaus, onde suas 1 Antropólogo do Museu Paraense Emílio Goeldi – MPEG. Artigo publicado em ABREU, Regina; BESSA FREIRE, José Ribamar. Memórias e Patrimônios Indígenas: Conquistas e Desafios. Curitiba, CRV, 2018