Submetido em 31/05/2019 Aceito em 25/09/2019 Hermes & musas: uma breve notícia sobre a tradução musical de poesia antiga C. Leonardo B. Antunes e Bruno Palavro* Introdução Partindo de uma concepção canônica, aquilo que tradicionalmente chama- mos de poesia é matéria livresca, cravada na palavra escrita. Se nos reme- termos ao puro creme do cânone poético como há muito é consumido por nós – Homero, por exemplo –, fica claro que a fruição da obra é indissociá- vel do ato de leitura. Não há nenhuma denúncia nessa constatação: o leitor brasileiro, inclusive, dispõe de excelentes traduções para todos os gostos, 1 para gregos e troianos. Podemos dizer que a tradução dos antigos no Brasil passa muito bem (e, como se pretende noticiar com este trabalho, promete- se ainda mais fecunda). Existe, contudo, uma necessidade que sempre paira sobre trabalhos desse tipo: se graças à escrita essas obras foram preservadas e podem hoje ser difundidas e fruídas, uma introdução, um comentário ou uma nota de rodapé sempre chamarão atenção para o papel determinante da oralidade e da performance na concretização da poesia antiga. A maior parte dos poemas que nos sobreviveram como literatura da Antiguidade foi composta não para ser lida, mas para ser ouvida. Na épica, temos a figura do aedo, o “poeta-cantor”, que, geralmente acompanhado da lira, entoava suas canções para um público específico. Os próprios proêmios já indicam a questão: “canta, deusa”, na Ilíada; “pelas Musas co- mecemos a cantar”, na Teogonia. As Musas não apenas presidiam à inspira- ção poética, mas à própria voz, à palavra entoada; filhas da Memória, am- paravam os aedos que desta se valiam para dar sua poesia à voz. * Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 1 Destacam-se as de Odorico Mendes, Carlos Alberto Nunes, Haroldo de Campos e Christian Werner. 10.17771/PUCRio.TradRev.45901