ODISSEIAS I-XII Alessandra Vannucci I. Toda fuga, no mapa ancestral da vida humana que os mitos descrevem, aponta para um ato de fundação: Eneias, em fuga de Troia incinerada, funda Roma; o povo judeu, em fuga da escravidão do Egito, funda Israel. Afastando-se de tudo que antes lhe pertencia, os fugitivos – exilados desterrados emigrantes – entendem que o lugar de onde eles vêm já não existe. Retornar é impossível; nenhum retorno, mesmo que venha a ser possível, compensa o luto que em algumas línguas tem denominação específica na palavra nostalgia (do grego nostos+algia, ou seja, “dor do retorno”). Nesta via de mão única, qualquer tentativa de integrar-se ao novo território atende primeiramente a um instinto de sobrevivência, que satura o cotidiano de uma pujança incomum. Kristeva (1994, 26) define como “economia do gasto sem limites” esta postura de superinvestimento em si mesmo, como força de trabalho que tende a articular-se de forma confiante na retórica assimilacionista do Estado-nação. Brota disso um nacionalismo específico, uma retórica otimista do imigrante “salvo” pela terra que lhe dá refúgio. Aqui, neste presente onde deverá ser possível construir um futuro, tudo será feito melhor do que lá, no passado para onde não há retorno. Esta fantasmagoria temporal absolve os viajantes – exilados desterrados emigrantes – do trauma do abandono e afaga sua nostalgia. Deixando um lugar que não existe mais, constroem para si um lugar que não existe ainda. II. O estrangeiro visita histórias desde a Antiguidade e parece ter uma função bem definida nas mitologias de fundação, não só como personagem, mas principalmente como narrador. Ulisses, regresso à sua ilha após dez anos de navegação, com o raiar do sol pega novamente o caminho do mar. Trazendo no corpo e na voz as marcas do viajante aos olhos de todos os que o encontram (incluídos seus familiares), conquista o lugar de fala de quem carrega histórias. Antes de ser reconhecido como o indivíduo que é ou diz ser, ele é o estrangeiro, logo, o narrador. Seu “estar” não chega a “ser”, pois ele parece ter perdido sua capacidade de voltar definitivamente ao lugar que um dia foi dele. Desilhar-se é sua sina. A viagem, vocação indomável do humano, é uma projeção fortemente implicada no processo de construção da identidade de uma comunidade. Mesmo pertencendo simbolicamente, a singularidade do viajante/estrangeiro é irredutível, pois, segundo Simmel (1983), a posição que lhe cabe é determinada pelo fato de não ter pertencido àquele grupo desde o começo ou de carregar qualidades que não poderiam ali se originar. Seu saber é singular; sua língua soa “bárbara” aos indígenas; seu luto pelo que perdeu, incomunicável. A cisão entre as duas culturas que carrega não é soma de dois inteiros, mas resultado de duas subtrações – uma fronteira interna que se faz visível no corpo. Nem a familiaridade adquirida por uma longa permanência, embora ampliando a base para trocas possíveis, anula sua estrangeirice. Sua figura persiste não uniforme, às vezes por pequenos detalhes da roupa ou por um gesto, um sotaque esquisito; algo que permanece reativo aos padrões de normalidade. Posto que julgamos normal aquilo cuja recepção tornou-se rotineira no seio de uma comunidade, constituindo uma medida de aceitabilidade social, então, a diferença que o estrangeiro carrega em seus traços constitui uma medida de inaceitabilidade; tal inaceitabilidade traduz-se em impossibilidade de apreensão daquela identidade dupla por parte da comunidade, pois a lógica grupal, culminando na política nacionalista do Estado-nação, “repousa em certas exclusões” (Kristeva, 1994, 103). Sendo assim, ser estrangeiro é (segundo Simmel, 1983, 183) “uma forma específica de interação”. Seu isolamento sugere uma constante relativização daquele cotidiano, no qual jamais caberá inteiramente. Mesmo sendo cidadão, até mesmo sendo rei (como Ulisses) ele nunca mais pertence a pátria alguma: move-se às margens, bordeia, espia, estranha. Quando não se torna inibidora de relações, suscitando a reprovação do nativo, tal marginalidade estimula uma postura inconformada (“não pertenço a nada, faço minha própria lei”) que pode