125 As relações perigosas: a intriga no fnal do Antigo Regime João de Azevedo e Dias Duarte Inicio este ensaio com uma advertência: falo sobre um romance que havia lido apenas uma única vez, há mais de dez anos. Ademais, não sou especia- lista em literatura francesa do Setecentos. A escolha do tema é, portanto, imprudente (senão irresponsável). A imprudência é ainda agravada pelo pouco tempo de que – dividido entre minhas atividades como professor universitário e pai de um bebê de um ano – dispus para preparar este tex- to, o que não me permitiu me acercar minimamente de sua imensa fortu- na crítica. No entanto, a escolha se impôs depois de uma releitura recente, permitida pela oferta de um curso sobre Antigo Regime, sociabilidade de corte e a noção de civilidade, no Departamento de História, da PUC-Rio. Pude, então, confrmar a sua qualidade excepcional e, instigado pela leitu- ra, resolvi arriscar um comentário. Assim, o que apresento aqui são apenas algumas intuições iniciais, que eu espero possam, eventualmente, vir a se confrmar e se tornar algo mais substancial. Como o título já indica, o tema deste ensaio é a “intriga” no romance As relações perigosas, escrito no fnal do Antigo Regime, às vésperas da Re- volução Francesa. A data de sua publicação é 1782. A ideia é explorar os dois sentidos da palavra: seu sentido literário e seu sentido político-social, que, aliás, se estabelecem em meados do século XVII, não muito longe, portanto, do momento de publicação do romance. Intriga é tanto a organi- zação dos acontecimentos que formam o nó da ação numa obra de fcção quanto uma atividade pragmaticamente orientada, planejada e oculta, em