HEITOR MARTINS OLIVEIRA “Via-os ao mesmo tempo ‒ ouvia-os ao mesmo tempo”: criação musical, teatralidade e autoanálise composicional DEBATES | UNIRIO, n. 22, p.109-138, dez., 2019. p. 109 ____________________________________________________________________________________ “Via-os ao mesmo tempo ‒ ouvia-os ao mesmo tempo”: criação musical, teatralidade e autoanálise composicional 1 Heitor Martins Oliveira 2 Este ensaio desenvolve o que Nicolas Donin (2015a, 2015b) delimita e caracteriza como autoanálise no campo da composição musical. Por um lado, em uma acepção ampla, o trabalho do musicólogo francês contextualiza historicamente um tipo de escrita disseminado entre compositores-pesquisadores brasileiros. Por outro lado, em uma acepção mais estrita, chama atenção para seus desafios epistemológicos e metodológicos. Assim, na primeira parte do texto, discutem-se pressuspostos, procedimentos e objetivos da escrita autoanalítica, partindo da contribuição de Donin em seus artigos específicos sobre autoanálise ─ e outras publicações derivadas de estudos sobre a atividade de composição musical ─, estabelecendo relações com reflexões de compositores-pesquisadores brasileiros. A prática criativa específica discutida na segunda parte do ensaio revela um pensamento composicional motivado pela intenção expressiva de teatralidade na performance musical. As reflexões visam avaliar como essa intenção expressiva de teatralidade se articula às escolhas e tomadas de posição na prática da composição musical, em referência ao processo criativo de uma peça intitulada I saw them together ‒ I heard them together (2017) 3 . Trata-se de um trio para flautista, clarinetista e saxofonista, com duração de aproximadamente 11 minutos. A estreia foi realizada pelo Trio Capitólio: Gina Arantxa (flauta), Filipe Barcellos (clarineta) e Ingrid Locks (saxofone alto). Embora a performance não inclua vocalizações ou outros meios de apresentação de textos, o título e o roteiro das ações desempenhadas pelos performers evocam parte do relato de Marlow no romance Coração das Trevas (1902), de Joseph Conrad (1857-1924). 1 O texto apresenta conteúdo extraído da minha tese de doutorado: Música-como-teatro: uma prática composicional e sua autoanálise (OLIVEIRA, 2018). 2 Universidade Federal do Tocantins ─ heitormar@gmail.com 3 Estreia em 30 de novembro de 2017, como parte da série Quintas Musicais, no Teatro do Goethe-Institut em Porto Alegre-RS. Partitura: <https://goo.gl/rcrfR6 >. Registro audiovisual da estreia: <https://youtu.be/jj2NmCoae3E >. DEBATES | UNIRIO • Nº 22 • Dezembro 2019