AS NOÇÕES PRAGMÁTICAS DE POLIDEZ E FACE E SUA CONTRIBUIÇÃO PARA O ESTUDO DE CRENÇAS Helena da Silva Guerra Vicente Universidade de Brasília (UnB) Introdução Em um trabalho anterior (VICENTE & RAMALHO, 2009), argumentamos, minha co-autora e eu, em favor da possibilidade de se trabalhar o tema “crenças” à luz de uma teoria suporte: a teoria da polidez (BROWN & LEVINSON, 1987), fortemente relacionada à teoria da face (GOFFMAN, 1955, 1959). À ocasião, apresentamos nossos pressupostos teóricos de forma bastante sucinta e esquemática, já que nosso objetivo primordial era relatar os resultados de uma pesquisa realizada junto a uma classe de alunos universitários do curso de Letras-Inglês de uma instituição de ensino superior particular em Brasília-DF. O estudo teve por objetivo caracterizar as relações entre duas crenças desse grupo de alunos: uma crença antiga e fortemente arraigada de que errar é embaraçoso e deve ser evitado a todo custo, e uma crença em construção, provavelmente recém-adquirida, de que a correção individualizada de tarefas escritas pode ser positiva, por permitir-lhes refletir sobre os seus próprios erros. 1 Por meio da análise das interações professora-aluno(a) e monitora-aluno(a), notamos que os alunos, a fim de minimizar o sentimento de embaraço desencadeado pela situação da correção individualizada, lançavam mão de estratégias de polidez negativa tais como pedidos de desculpas e impessoalização. São, portanto, dois os objetivos do presente capítulo: (i) apresentar as teorias da polidez e da face de forma mais detalhada, tendo como ponto de partida os trabalhos clássicos de Goffman (1955) e Brown & Levinson (1987 [1978]) 2 , passando pela defesa do ponto de vista de que os conceitos de face positiva e face negativa podem ser, efetivamente, aplicados de maneira universal (O’DRISCOLL, 1996), e (ii) argumentar a 1 A palavra “erro” é utilizada pelas autoras em sua acepção mais genérica. A distinção entre “erro” e “engano” não é relevante para a análise. 2 A data entre colchetes corresponde à data da publicação da proposta dos autores em uma coletânea organizada por Esther N. Goody: Questions and Politeness. A data entre parênteses corresponde à data da publicação da primeira edição do livro contendo essa mesma proposta, Politeness: some universals in language use.