O outro na mitologia Jê Kaingang: a complementaridade pela diferenciação 1 Diego Fernandes Dias Severo Doutorando em Antropologia – PPGAnt\UFPel Docente - IFFar\Campus Alegrete diegofdias@gmail.com Resumo Este trabalho busca analisar os elementos diferenciadores presentes na mitologia Kaingang, prioriza uma abordagem etnológica comparativa, onde mitos Krahô, são comparados em sua estrutura. Como os mitos de origem do fogo, que se realiza a partir de um roubo, o mito de origem dos cantos e da dança que, na versão Kaingang, é apreendido do tamanduá e esse é respeitado pelos índios, enquanto entre os Krahô a história se repete, o animal está fora da aldeia (como entre os Kaingang), é um tatu e é morto pelos índios. Esse exemplo como outros apresenta a centralidade do outro no pensamento ameríndio, Jê em especial, onde a complementaridade, a hierarquia e a assimetria por vezes fica clara, como na organização social, e em outros momentos é “maquiada” pela “nuvem” civilizatória, que, tal como as inovações advindas do mundo dos animais, são apreendidas e utilizadas de uma perspectiva cultural particular. Palavras-chave: mitologia Jê, etnologia, Kaingang, outro, Krahô Introdução Este texto objetiva analisar a estrutura presente nos mitos de duas sociedades Jê, os Kaingang e os Krahô, que embora geograficamente distante apresentam elementos próximos em sua organização social, entre eles o dualismo, que estabelece um terreno profícuo para uma um exercício comparativo. Os mitos analisados versam sobre a origem do canto dos kaingang, krahô e dos mebêngôkre, e da origem do fogo kaingang e krahô. Todos apresentam um ponto comum, o canto como o fogo foram conseguidos com seres de fora da aldeia. A forma, contudo que o mesmo é apresentado em cada uma das versões destoa e se inverte, os krahô matam o provedor do canto e são acolhidos pela onça, enquanto os kaingang acolhem o provedor do canto e enganam o provedor do fogo. A partir da análise desses mitos podemos entender um pouco da forma com que essas sociedades interagem com seus outros. Sabemos que um mito não pode revelar como os homens pensam (Lévi-Strauss, 1991), mas: 1 Trabalho apresentado nas Jornadas de Antropologia da Unicamp, 2017. Publicado em: Jornadas de Antropologia John Monteiro Anais, 2017, p. 230-241.