Alguns apontamentos sobre militância digital 1 Solange Mittmann 2 A internet como cenário de circulação de discursos outros A reflexão que apresento aqui tem como ponto de partida a percepção do papel cada vez mais relevante que as Tecnologias de Informação e Comunicação, as TIC, têm ocupado no enfrentamento entre forças constituintes de uma formação social. De um lado, mantém-se a forte saturação dos sentidos pré-determinados pela ideologia dominante – favorecida pela atuação da mídia hegemônica ligada a grandes corporações econômicas e políticas. De outro, percebe-se a forte atuação de cidadãos, coletivos e movimentos sociais, por meios alternativos possibilitados pelas TIC, que muitas vezes fogem ao controle estatal e econômico de grupos que tradicionalmente centralizam a informação. Neste segundo caso, tem-se a abertura de espaços para o “inconcebível” em meio ao saturado e, então, novos preenchimentos. É claro que, como muitos destes sujeitos ocupam na sociedade lugares à margem do poder político e econômico, também os espaços que ocupam no ciberespaço são lugares à margem daqueles das grandes corporações. Mesmo assim, com a apropriação da tecnologia, ampliam tal ocupação do ciberespaço assinalando possibilidades de transformação social. Como disse em outro momento (MITTMANN, 2010a), a circulação, antes limitada a redes menores, a pequenas comunidades, hoje é potencializada. E a possibilidade de entrar nessa grande rede de significantes, fazendo circular vozes outras que não as parafraseadoras do discurso da ideologia dominante, tem permitido a divulgação em grande escala de discursos de denúncias, bem como as convocações aos internautas, ultrapassando fronteiras geográficas e econômicas. Trata-se de um fenômeno possibilitado pelo novo formato de uma formação social, que tem a ver com o que Castells (2008, p.1) denomina sociedade em rede: “uma sociedade em que tudo está articulado de forma transversal e onde há menos controle das instituições tradicionais”. É essa articulação que caracteriza a sociedade em rede: “Rede é um conjunto de nós interconectados. Nó é um ponto no qual uma curva se entrecorta. Concretamente, o que um nó é depende do tipo de redes concretas de que falamos.”(CASTELLS, 1999, p. 498) É nessa concepção de rede que proponho que se pense a respeito da apropriação da internet por grupos sociais, pois a denúncia social e a contrainformação surgem como nós na própria articulação da rede. E se definem e fazem sentido por esta articulação. As formas de circulação no ciberespaço, quando pensadas como articulação em rede, podem escapar a um imaginário de hierarquização, que localizaria os discursos de tais grupos sociais em pequenos espaços “cedidos” pelo poder econômico e estatal. Embora ocupando e apropriando-se de espaços marginais, os grupos sociais que buscam a democratização midiática e fazem circular no ciberespaço discursos de denúncia, contestação e contrainformação não são considerados aqui como anexos ou secundários às grandes corporações e seus discursos tradicionais. Além disso, como afirma Pêcheux, parece ser crucial afastar a ideia, tanto sedutora quanto falsa, de que as ideologias dominadas, por não serem o simples reflexo inverso da ideologia dominante, constituiriam espécies de grandes germes independentes: elas nascem no lugar mesmo da dominação ideológica na forma dessas múltiplas falhas e resistências (PÊCHEUX, 2009, p.26) Nem subordinados, nem independentes, mas fazendo parte, sendo constitutivos da rede, essa é a forma como hoje tais grupos sociais apropriam-se do ciberespaço. É assim que pequenas iniciativas de democratização midiática vão sendo criadas e articuladas a cada dia. Como afirma Cruz (2004), 1 In: GRIGOLETTO, Evandra; DE NARDI, Fabiele S.; SCHONS, Carme Regina (Org.). Discursos em rede: práticas de (re)produção, movimentos de resistência. Recife: Ed. Universitária - UFPE, 2011, p. 119-139. 2 Doutora em Estudos da Linguagem e docente do Instituto de Letras da UFRGS e orientadora do PPG- Letras. Membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Análise do Discurso – GEPAD-RS.