287 Duas vezes Maria Filomena Molder Pedro Fernandes Galé Universidade Federal de São Carlos | São Paulo | Brasil Maria Filomena Molder (2014), As nuvens e o vaso sagrado, Lisboa: Relógio D’Água. Maria Filomena Molder (2017), Dia alegre, dia pensante, dias fatais, Lisboa: Relógio D’Água. É necessário conhecer o próprio abismo E polir sempre o candelabro que o esclarece. Murilo Mendes, Poema Dialético Comecemos por observar que o público de flosofa no Brasil deve celebrar o fato de a obra de Maria Filomena Molder, flósofa e ensaísta portuguesa, ter sido escrita em nossa língua. Embora tenhamos um Atlântico e seus gigantes entre nós, a leitura destes livros, um deles, As nuvens e o vaso sagrado, surgido em 2014, o outro, Dia alegre, dia pensante, dias fatais, de 2017, apresenta-nos como que a essencialidade de nossa língua, em seus obstáculos e suas riquezas, diante de objetos que têm sua origem alhures. É para a nossa língua mãe que Filomena Molder arrasta grandes questões, grandes pensadores, grandes poetas que perambulam no mundo multilíngue. Sob sua pena, a flosofa e a poesia ganham uma verve lusófona, na qual notamos a unidade em meio à variedade. Não se trata de uma germanista, mas de uma irmã em letras e flosofa germânicas (quando o caso) em bom português. Mais do que a unidade dada a reboque pelo fato de serem ambos da mesma autora, há entre os dois livros aqui resenhados uma unidade de caráter, que se apresenta inicialmente em termos formais; pois, em ambos, o que temos é uma série de ensaios que buscam a sua unidade no “amálgama, no sentido goethiano (alquímico), de preferência” (Molder, 2017, p. 12). Isso não signifca que tenha- mos um trabalho disforme e errático. A unidade se apresenta ao leitor como um doi: 10.11606/issn.2318-8863.discurso.2018.147575