315 DA ANTROPOFAGIA À TRANSCULTURAÇÃO: O LOCAL DA DIFERENÇA NO NOVO ROMANCE HISTÓRICO SANTO REIS DA LUZ DIVINA, DE MARCO AURÉLIO CREMASCO Thiana Nunes Cella (IFPR/UNIOESTE) Resumo: A produção literária contemporânea de romances históricos no Brasil caracteriza-se por uma postura de resistência e subversão da história hegemônica. Nesse sentido, as modalidades críticas das narrativas híbridas de história e fcção compartilham e desenvolvem o cerne da antropofagia oswaldia- na: a assimilação cultural crítica, que se instala na produção (e re-produção) transgressora do modelo colonizador. O novo romance histórico Santo Reis da Luz Divina (2004), de Marco Aurélio Cremasco, é exemplar dessa postura crítica e de resistência frente ao discurso histórico ofcial. A narrativa de Cremasco apresenta estratégias escriturais bastante diversifcadas, bakhtinianas e desconstrucionistas, com um olhar atento à história nacional, em especial à historiografa do Paraná, a qual reelabora o que em grande parte permanece na semiobscuridade, retratada por uma ótica eurocêntrica e colonial. O presente trabalho apre- senta, assim, algumas considerações sobre a necessidade latino-americana de resistir, de subverter e de não aceitar passivamente as imposições eurocêntricas, relacionando-a às ideias embrionárias da antropofagia, da transculturação, do entre-lugar, da creoulidade, dentre outros; posteriormente, parte para uma análise crítica do romance, a fm de exibir como o discurso fccional realiza a ressignifcação do discurso histórico tradicional por meio de uma perspectiva não ofcial. Palavras-chave: Assimilação crítica; Novo romance histórico; Romance histórico paranaense. Introdução Ancorados nas assertivas da antropofagia oswaldiana, são muitos os desdobramentos concernentes à assimilação crítica, refexões especialmente relevantes na América latina, espaço marcado por um passa- do de exploração e abuso sistemáticos. Silviano Santiago, ao conceber o conceito de entre-lugar, em texto inaugural de 1971, explora e amplifca a percepção da produção literária latino-americana como um espaço de resistência e subversão dos elementos tradicionais eurocêntricos. Nesse sentido, a primeira parte do artigo ora apresentado realiza uma breve abordagem teórica sobre as diferentes percepções e aberturas possibilitadas pelo pensamento antropófago, tomando a concepção de entre-lugar como potencializador de discussões posteriores. Assim, parte-se da antropofagia, para chegar aos conceitos de entre-lugar, transculturação, terceiro espaço, creoulidade, dentre outras formas de alcançar a descolonização, a fm de explicitar as características da literatura produzida nesses espaços; as quais, nos romances históricos críticos, estão alicerçadas na impugnação e desestabilização do discurso historiográf- co hegemônico, e a fragilização do conceito de verdade. Na segunda parte, apresenta-se uma análise do novo romance histórico Santo Reis da Luz Divina, do