Ornithologia 1(1):25-32, Junho 2005 INTRODUÇÃO O meio ambiente urbano, apesar de pouco estudado em comparação com ecossistemas naturais preservados, fornece uma oportunidade impar para o estudo de comunidades de aves. Sob infuência do ser humano, este ambiente se caracteriza por possuir fragmentos de diferentes tipos de vegetação alterada, com tamanhos e formas distintas, composta geralmente por espécies vegetais oportunistas ou exóticas (os parques, praças e jardins de uma cidade) MATARAzzO-NEUBERGER (1995). Muitos destes locais servem de refúgio para certas espécies de aves, possibilitando inclusive a colonização por novas espécies EMLEN (1974). Desta forma, os parques e praças se tornam ambientes chaves para a manutenção ou alteração da diversidade avifaunística das cidades, tornando-se necessário o estudo destes ambientes para avaliar os efeitos que as alterações causam na fauna natural original, bem como propor ações de manejo para sua manutenção. A maioria dos trabalhos realizados em ambientes urbanos, com comunidades de aves, fornece somente a composição e a abundância relativa das espécies. No Brasil, podemos citar, entre outros, os estudos de ANJOS & LAROCA (1989), MATARAzzO-NEUBERGER (1992), ARGEL-DE-OLIVEIRA (1995) e, especialmente para Porto Alegre, VOSS (1979: 1981), SANDER & VOSS (1982) e RUSzCzYK et al. (1987). Abordagens de cunho trófco são raras, excetuando-se os trabalhos de MATARAzzO-NEUBERGER (1995) e VILLANUEVA & SILVA (1996). As guildas trófcas correspondem ao grupo de espécies que exploram a mesma classe de recursos de maneira semelhante ROOT (1967). Segundo TERBORGH & ROBINSON (1986), o conceito de guilda abre a possibilidade para comparações entre a organização funcional de diferentes comunidades, embora Estrutura trófica da Avifauna em oito parques da cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil Adriano Scherer 1, 3 , Scherezino Barboza Scherer 2 , Leandro Bugoni 3 , Leonardo Vianna Mohr 3 , Márcio Amorim Efe 2 & Sandra Maria Hartz 4 . 1 Rua Umbu, nº 657/apto. 358. CEP 91350-100 – Bairro Jardim Ipiranga. Porto Alegre/RS, Brasil - e-mail: adriano.scherer@ proaves.org.br 2 CEMAVE-IBAMA – Rua Miguel Teixeira, nº 126. CEP 90050-250 - Bairro Cidade Baixa. Porto Alegre/RS. 3 PROAVES – SCLN 315 – Bloco B –Sala 202 – 70774-520 – Brasília/DF. 4 Laboratório de Ecologia de Vertebrados - Centro de Ecologia, UFRGS. Av. Bento Gonçalves, nº 9500. CEP 90.540-000 - Bairro Agronomia. Porto Alegre/RS. RESUMO – ESTRUTURATRÓFICA DAAVIFAUNA DE OITO PARQUES DA CIDADE DE PORTOALEGRE, RIO GRANDE DO SUL. A estrutura trófica das comunidades de aves nos oito principais parques urbanos da cidade de Porto Alegre foi estudada de junho de 1998 a junho de 1999, com um esforço amostral total de 106 visitas e 644 horas de observação e captura. Entre os oito agrupamentos tróficos utilizados neste estudo, os onívoros e os insetívoros foram os mais representados, englobando 66% do total de espécies registradas nos parques. Aproximadamente a mesma proporção foi observada quando os parques foram analisados individualmente. Quando os resultados para os parques urbanos foram comparados com informações sobre grupos tróficos de habitats naturais da região metropolitana, não foram observadas diferenças funcionais, sugerindo que a cidade de Porto Alegre apresenta uma comunidade de aves relativamente bem conservada, apesar da diferença de tamanho e estrutura da vegetação dos parques. PALAVRAS-CHAVES� agrupamento trófico, ambiente urbano, comunidade de aves. ABSTRACT – AVIFAUNATROPHIC STRUCTURE IN EIGHT PARKS OF PORTO ALEGRE CITY, RIO GRANDE DO SUL, BRAzIL. The trophic structure of bird communities in the main eight urban parks of Porto Alegre city was studied from June 1998 to June 1999, with a total sampling effort of 106 visits and 644 hours of observation and capture. Among the eight trophic groupings used in this study, the omnivorous and the insectivorous were the most represented ones, encompassing 66% of all registered species in the parks. Approximately the same proportion was observed when the parks were analyzed individually. When the results for the urban parks were compared to information on trophic groups from natural habitats in the metropolitan region, no functional differences were observed, suggesting that Porto Alegre city presents a relatively well conserved bird community, despite the different size and vegetation of the parks. KEY WORDS: bird community, trophic grouping, urban environment.