323 Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, 18: 323-330, 2008. As informações bibliográficas sobre a área indicam que esse antigo estaleiro teria pertencido ao sargento-mor Joaquim José da Costa, mencio- nado em documento de tombo do ano de 1817 (Almeida 1952: 3-14). Estima-se que o estaleiro tenha funcionado da segunda metade do século XVIII – época de intensificação da atividade de construção naval em Cananéia (Almeida 1965: 465-470) – até por volta de 1829, quando o sargento-mor se muda para Paranaguá (Almeida 1968: 437-441). A importância de se estudar um estaleiro antigo está no fato de ele permitir uma ampla compreensão sobre a economia e a sociedade da região através da produção de uma mercadoria detentora de um duplo valor: as embarcações servem tanto para transportar mercadorias, mas também elas próprias são um tipo de mercado- ria. No caso de Cananéia elas constituíam um dos maiores produtos de exportação no início do século XIX (Luccok 1975: 403). A prospecção Para a localização de possíveis vestígios no terreno da base foram escavados, com ferra- mentas manuais, 93 poços-teste (uma modifica- ção do shovel-test anglo-saxão) com cerca de 20 a 30 cm de diâmetro e até 1 metro de profundi- dade, com intervalos de 10 metros entre eles e orientados por uma malha ortogonal. Caso fossem encontrados vestígios arqueológicos em subsuperfície, abriam-se outros poços-teste ao redor do original na tentativa de identificar uma concentração de material. Nas áreas onde o material arqueológico estava disposto em superfície o espaçamento normal entre os poços-teste foi de 5 metros. Prospecção arqueológica na base costeira do Instituto Oceanográfico da USP em Cananéia, Estado de São Paulo Paulo F. Bava de Camargo* (*) Pesquisador associado do Centro de Estudos de Arqueologia Náutica e Subaquática/ UNICAMP; aluno de pós-graduação (doutorado) do Museu de Arqueologia e Etnologia/ USP; bolsista CNPq – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – Brasil. pfbavacamargo@yahoo.com.br (1) Para a realização do trabalho de prospecção contei com a participação dos alunos de pós-graduação do MAE-USP Leandro Domingues Duran (doutorado) e Ricardo Santos Guimarães (mestrado). Também participaram os ajudantes de serviços gerais Hélio Gomes, Israel Gomes, Nilton Gomes e Ricardo Pereira. (2) Agradeço à diretora do IO-USP, Ana Maria Setubal Pires Vanin e a todo o pessoal da sede e da base costeira pela boa recepção e pela ajuda prestada. (3) Título: “Arqueologia de uma cidade portuária: Cananéia, séculos XIX-XX”; orientadora: Profª. Drª. Maria Cristina Mineiro Scatamacchia, pesquisadora do MAE-USP e coordenadora do Programa Arqueológico do Baixo Vale do Ribeira. Este último é financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). ntre os dias 24 e 28 de julho de 2007 foi realizada uma extensiva prospecção arqueológica 1 no terreno da base costeira de ensino e pesquisa “João de Paiva Carvalho”, localizada no município de Cananéia, litoral Sul de São Paulo (Fig. 1). 2 Essa prospecção se enquadra no âmbito da pesquisa de doutorado desenvolvida pelo autor 3 e se justifica pela observação de um detalhe da carta de João da Costa Ferreira, publicada por volta de 1815 (Reis Filho 2000) (Fig. 2). Nela podem ser vistas as representações gráficas de duas edificações, uma embarcação e duas carreiras de estalei- ro (estrutura utilizada para tirar e recolocar as embarcações na água), estabelecidas nas cotas de interface do morro de São João com o mar. E Paulo F Bava de Camargo.pmd 08/05/2009, 20:43 323