Bacurau — a propósito de sangue, mapas e museus Patrícia Mourão de Andrade Dois acontecimentos culturais recentes no país escolheram marcar com sangue chão e paredes de museus: Bacurau, filme codirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, e a 36ª edição do Panorama de Arte Contemporânea, do MAM-SP, curada por Júlia Rebouças e chamada Sertão. No primeiro, após um banho de sangue dentro do Museu Histórico de Bacurau, a curadora ou responsável pelo espaço ordena que, na faxina, limpe-se todo o sangue, à exceção da marca vermelha de uma mão ferida deixada na parede. Em Sertão, o sangue está no chão, como que escorrido de um tecido (ou do corpo que o pintou) onde se lê: “Até quando vão nos matar em nome de Deus?”. Voltados para o lado de fora da sala de vidro do MAM, ocupada pelo trabalho de Vulcanica Pokaropa, sangue e bandeira são visíveis para todos aqueles que se aproximam do museu pela marquise do Parque Ibirapuera. Em Bacurau, o sangue no museu só aparece perto do encerramento do filme. Mas, como Sertão, o filme traz, já no início, algumas advertências do caráter combativo e destemido do povoado: “Bacurau 17 km / Se for, vá na paz”, lê-se em uma placa na beira da estrada logo após a sequência de créditos, quando um satélite artificial