1 Testemunho filmado e montagem direta dos documentos 1 Anita Leandro Como filmar as testemunhas da história? Via de regra, no documentário histórico, a testemunha é tida como alguém que conta suas lembranças mediante perguntas que lhe são feitas, como se o testemunho sobre o passado fosse algo dado de antemão, fosse um discurso previamente preparado, apenas à espera de um entrevistador. E não parece ser muito diferente no campo da história. Os especialistas da história oral admitem o quanto é raro esse gesto de colocar documentos nas mãos das testemunhas para serem analisados. 2 Tanto no cinema quanto na disciplina histórica, o método predominante ainda é o da entrevista dirigida e da escrita a posteriori, na ausência da testemunha, quando as falas são cortadas, selecionadas e, finalmente, associadas aos documentos pelo montador ou pelo historiador. Para uma compreensão mais ampliada das possibilidades de experiência da oralidade abertas pelo cinema historiográfico, faremos, aqui, uma exposição dos procedimentos de organização do testemunho adotados no filme Retratos de identificação (Anita Leandro, Brasil, 2014, 72 min.). Realizado a partir dos acervos fotográficos das agências de repressão, esse documentário pôs em prática um modo particular de registro da fala, apoiado na mediação do documento, método concebido em substituição à entrevista tradicional. À guisa de perguntas, reproduções de diversos materiais de arquivo foram entregues às pessoas filmadas, criando, no espaço da filmagem, condições para uma elaboração diferenciada do testemunho, sem o auxílio do questionário e sem a interferência do entrevistador. Aqui, os documentos assumem realmente a função de conectores 3 entre o passado e o presente. Surge, dessa convocação antecipada das fontes documentais, uma fala singular, inusitada, pois proveniente de uma interação da testemunha com os vestígios de sua história. Chamemos de “montagem direta” esse comparecimento da imagem diante da testemunha, método que precede a montagem propriamente dita no estabelecimento 1 In: DELLAMORE, Carolina; AMATO, Gabriel; e BATISTA, Natália, orgs. A ditadura na tela. O cinema documentário e as memórias do regime militar brasileiro. Belo Horizonte: Fafich-UFMG, 2018, pp. 2019-232. 2 MORAES FERREIRA, Marieta de. & AMADO, Janaína. Usos e abusos da história oral. Rio de Janeiro: FGV, 2012. 3 RICŒUR, Paul. Temps et récit. Tome 3. Le temps raconté. Paris: Seuil, 1985, p. 181.