RELAÇÕES INTERNACIONAIS SETEMBRO : 2019 63 [ pp. 027-038 ] https://doi.org/10.23906/ri2019.63a03 INTRODUÇÃO A ideia de autodeterminação lançada por Woodrow Wilson (o quinto dos seus «14 Pontos») 1 veio acrescentar uma nova dimensão ao tema da continuidade do império colo- nial português lançada pelo scramble for Africa de fnais de Oitocentos. Se, por um lado, a Conferência de Paz de Versalhes confrmou a manutenção do statu quo colonial, por outro, a criação da Sociedade das Nações (SdN) e dos seus mecanismos normativos e de supervisão, bem como do sistema de mandatos, lançaram novos temas e alguns motivos de inquietação para a classe política portuguesa. Como notou Tiago Moreira de Sá, a nova organização introduziu uma mudança sensível resultante da «substi- tuição do sistema de equilíbrio de poder, pelo de segu- rança coletiva», que dava destaque à «ação coletiva de todos os Estados que, supostamente, reconheciam a exis- tência de um interesse comum na manutenção da estabi- lidade e da paz internacional» 2 . Ora, se é verdade que em Versalhes se confrmou a persistência das possessões africanas, a visão internacionalista de Wilson introduziu novos desafos e encargos para Portugal, quer pela neces- sidade de participar de forma ativa nas novas instituições internacionais então criadas, quer pela necessidade de dar resposta aos novos dispositivos de supervisão e vigi- lância por elas lançados, em que, não raras vezes, a ima- gem externa de Portugal não era exatamente favorável. O que se procurará explorar neste artigo é o entendimento de autodeterminação para Wilson, a maneira como foi RESUMO O presente texto pretende relacionar e articular o conceito wilso- niano de autodeterminação, a forma como foi acolhido na Conferência de Paz de Versalhes e desembocou no sistema de mandatos, com as posi- ções e debates da delegação portu- guesa à mesma conferência e o seu impacto na política externa portu- guesa. Embora em Versalhes se tenha confrmado a persistência das posses- sões africanas, a visão internaciona- lista de Wilson introduziu novos desafios e encargos para Portugal, quer pela necessidade de participar de forma ativa nas novas instituições internacionais então criadas, quer pela necessidade de dar resposta aos novos dispositivos de supervisão e vigilância por elas lançados. Palavras-chave: Sociedade das Nações, Portugal, autodeterminação, política externa portuguesa. ABSTRACT Echoes and refexes of internationalism and the wilsonian idea of self-determination in the Portuguese foreign policy DO TRATADO DE VERSALHES À CRISE DO INTERNACIONALISMO LIBERAL Ecos e refexos do internacionalismo e da ideia wilsoniana de autodeterminação na política externa portuguesa Nuno Canas Mendes >