Sképsis 21 Sképsis: Revista de Filosofia ISSN 1981-4194 Vol. XI, N. 21, 2020, p. 20-30 Sképsis: Revista de Filosofia, vol. XI, n. 21, 2020, p. 20-30 - ISSN 1981-4194 O Aristóteles de Sexto no Contra os físicos: a noção de deus e a eutaxía Alice Bitencourt Haddad Universidade Federal Fluminense Email: alicecorreio@gmail.com Na exposição do terceiro modo cético, nos Esboços Pirrônicos, Sexto coloca em dúvida a tese que ficou conhecida como a da comensurabilidade dos sentidos. Como saber se existem cinco qualidades sensíveis (referentes à visão, à audição, ao olfato, ao paladar e ao tato) ou se percebemos essas cinco apenas porque temos cinco sentidos? (PH 1.94-97) “Mas a natureza comensurou, dirá alguém, os sentidos de acordo com os sensíveis” (PH 1.14.98). A essa objeção, Sexto devolve uma pergunta: “Qual natureza?”. O desacordo em torno do assunto é grande, e os filósofos dogmáticos comprometidos com suas próprias teses sobre a phýsis seriam imparciais nessa discussão. Sexto não se demora nessa questão, deixando ao intérprete a tarefa de buscar os pensadores a que se refere, esses que sustentariam uma concepção de natureza que atua de modo racional ou inteligente. Para quem estuda as escolas do tempo de Sexto, fica claro que tem em mente o estoicismo. A célebre passagem de Epiteto, divulgada no comentário de Annas e Barnes (1997, p. 75), parece não deixar dúvidas. 1 Sexto não se detém, todavia, nessa discussão, considerando que a sugestão de que percebemos o fenômeno e não a coisa mesma é já suficiente para manter a dúvida. Cores, sabores, sons, odores, as sensações de dureza e moleza, de liso e áspero - essas percepções nos informam sobre a realidade de uma coisa? A maçã, que é o exemplo que Sexto utiliza, é realmente vermelha e doce? Ela é, em si mesma, vermelha e doce? Essa dúvida não foi, certamente, inaugurada por Sexto. Poderíamos citar Demócrito e Platão como filósofos que se colocaram essa mesma questão. 2 O objetivo deste trabalho, todavia, não é o de explorar a crítica 1 Epiteto, Discursos 1.6.3-6: “‘Se Deus tivesse feito as cores mas não a faculdade de vê-las, qual seria a utilidade disso?’ ‘Nenhuma.’ ‘Mas, ao contrário, se tivesse feito a faculdade porém não os seres sujeitos à faculdade da visão, do mesmo modo, qual seria a utilidade disso?’ ‘Nenhuma’. ‘E então? Se ele tivesse feito ambas as coisas, mas não tivesse feito a luz?’ ‘Nem assim haveria uma utilidade.’ ‘Então, quem juntou isso àquilo e aquilo a isso? Quem juntou a espada à bainha e a bainha à espada?’”. χρώµατα ὁ θεὸς εἰ πεποιήκει, δύναµιν δὲ θεατικὴν αὐτῶν µὴ πεποιήκει, τί ἂν ἦν ὄφελος; - Οὐδ᾽ ὁτιοῦν. - Ἀλλ᾽ ἀνάπαλιν εἰ τὴν µὲν δύναµιν πεποιήκει, τὰ ὄντα δὲ µὴ τοιαῦτα οἷα ὑποπίπτειν τῇ δυνάµει τῇ ὁρατικῇ, καὶ οὕτως τὶ ὄφελος; - Οὐδ᾽ ὁτιοῦν. - Τί δ᾽, εἰ καὶ ἀµφότερα ταῦτα πεποιήκει, φῶς δὲ µὴ πεποιήκει; - Οὐδ᾽ οὕτως τι ὄφελος. - Τίς οὖν ὁ ἁρµόσας τοῦτο πρὸς ἐκεῖνο κἀκεῖνο πρὸς τοῦτο; τίς δ᾽, ὁ ἁρµόσας τὴν µάχαιραν πρὸς τὸ κολεὸν καὶ τὸ κολεὸν πρὸς τὴν µάχαιραν; 2 Sobre Demócrito, ver Aristóteles, Metafísica 4.5.1009b7 e também Sexto Empírico, M 8.135 (= fr. 9 DK). Para Platão, o texto que me parece mais revelador nesse sentido é o Timeu na sua explanação sobre a percepção dos sensíveis em