1 A psicanálise existe? Considerações sobre o materialismo da psicanálise Fernanda Costa-Moura e Francisco Leonel Fernandes Por ocasião do seminário de 1968-69, intitulado De um Outro ao outro, ao relançar seu ensino pelo décimo sexto ano consecutivo, e depois de tê-lo iniciado enfatizando que um discurso tem condições e é mesmo idêntico às suas condições (pois não há “universo do discurso” e nem portanto, "discurso universal"), Lacan dobra sua aposta, por assim dizer, e coloca à prova, explicitamente, a tentativa – problemática, contingente e dependente de ato – da psicanálise. “Entendam...” ele diz (LACAN, 1968-9/2008, p. 31), fazendo um apelo, que parece mais um aviso, um chamado e até um pedido: "Escutem..., sobre a psicanálise...", ao menos aquela a que ele, Lacan, se refere 1 , a que ele pratica ali entre seus alunos, no seu ensino; a psicanálise como discurso que tem conseqüências, ou discurso que “visa", (que atinge e que concerne) "a causa", a estrutura "do próprio discurso" a propósito desta psicanálise, Lacan adverte, "o que está em jogo... é saber se ela existe". Impossível ignorarmos o inusitado disso: não se pergunta se a física existe, se a antropologia existe ou se existe a biologia, mas para a psicanálise a questão é permanente e crucial. A existência da psicanálise é problemática, no sentido de indecidível, e contingente, vale dizer, não garantida, não necessária. Como o próprio Lacan enfatizou muitas vezes, o surgimento da psicanálise por um lado é datado – ou nos termos deste seminário é "conseqüência do discurso" que se articulou no real, por uma série de fatores tão amplos quanto a ciência moderna e o monoteísmo –, e por outro lado este discurso novo é inseparável do ato de Freud, em primeira instância, e do ato Psicanalítico, de todo modo, permanentemente. A psicanálise é, portanto, um discurso que se defronta com as conseqüências do discurso (LACAN, 1968-9/2008, pp. 31-32), e isso implica que ela é uma práxis: que não pode existir em si mesma, como mera elucubração de saber. Por isso mesmo a questão de saber se a psicanálise existe se coloca e é substancial. Não se trata de discutir atributos (discutir se a psicanálise é isso ou aquilo, se é boa ou ruim, se é eficaz, se obtém o bem, se é valiosa ou falaciosa) e sim de problematizar mais radicalmente sua 1 Nas versões feitas a partir da gravação original encontramos o acréscimo "... a psicanálise que eu indico".