36 Neoplatonismo, mstica e poesia: do dizvel ao indizvel Cicero Cunha Bezerra Departamento de Filosofia/UFS Falar sobre mstica nªo Ø tarefa fÆcil. Sobre poesia, menos ainda. Nªo porque nªo se possa falar sobre mstica, ou poesia, mas exatamente porque se fala muito sobre ambas. De modo que esta minha interven- ªo jÆ comea marcada por um desconforto, a saber, escapar do risco de cair no falatrio vazio onde tudo cabe, ou seja, mstica seria desde uma mœsica de Reginaldo Rossi atØ um texto de Teresa De `vila, nem no radicalismo filolgico que inviabiliza determinadas formas comuns de experiŒncias mediante a distinªo terminolgica ou conceitual empregada por aqueles que as descrevem. Um caminho que me parece, por- tanto, viÆvel diante destes dois riscos, Ø demarcar nosso objeto de anÆlise o que, para mim, significa manter-se em uma tradiªo, isto Ø, restringir-se a um modo especfico de pensar, tanto na forma quanto no conteœdo, em uma vivŒncia classificada como experiencial, em que a filosofia e a literatura compar- tilham de uma mesma tarefa, a saber: revelar, mediante as metÆforas e os simbolismos, a existŒncia de uma ordem do mundo que nªo se deixa abarcar, precisamente, por nenhuma inteligibilidade. Nesse senti- do, teramos que repensar inclusive a ideia mesma de ordem. Tarefa que, ao contrÆrio de conduzir a uma distinªo dicotmica entre os mbitos da natureza (imanŒncia) e da sua totalidade (transcendŒncia), per- mite uma compreensªo em que o mstico, mais que mistØrio, Ø a constataªo de que os fatos do mundo nªo sªo tudo. Na verdade, isto Ø uma caracterstica marcante na tradiªo neoplatnica: a poesia ganhar estatuto de representaªo daquilo que supera toda representaªo. Contra a crtica platnica  mmesis e ao poeta, como imitador de sombras, Plotino, e depois Proclo, reabilitaram a literatura e o papel do poeta. Para ambos o poeta deveria ser compreendido como entheatiks (inspirado) (Beierwaltes, 1992, p. 259). O poeta nªo s ganha um novo valor, mas, para Proclo, o prprio Platªo depende dele. Na tica neoplatnica o texto literÆrio, em sua forma e conteœdo, expıe a tarefa tanto do poeta, quanto do filsofo, qual seja: expressar a unidade que se faz diversa em suas mœltiplas manifestaıes (1992, p. 260). As imagens, as cenas, as falas, os personagens, tudo faz parte de um s propsito: conduzir o homem a uma experiŒncia transcende-imanente da e na prpria linguagem. O que isto que dizer? Quando digo que mstica impli-