HISTÓRIA DA TRADUÇÃO: HISTÓRIAS DO QUÊ? HISTÓRIA PARA QUÊ? MAURICIO MENDONÇA CARDOZO 1 “De même qu’aujourd’hui, les mathématiciens réfléchissent sur l’histoire des mathématiciens, les physiciens sur l’histoire de la physique, les historiens sur l’histoire... de l’histoire, les traducteurs doivent réfléchir sur l’histoire de la traduction, non par goût des choses passées, mais pour se façonner un nouveau destin et une nouvelle figure.” Antoine Berman 2 Histórias do quê? Da tradução, das traduções, dos tradutores. História para quê? Para que, pensando o passado, possamos compreender o presente e idealizar o futuro – como nos ensina o velho mote herodotiano. De certo ponto de vista, as perguntas que formam o subtítulo deste trabalho, talvez pela obviedade do que se possa presumir de suas respostas, podem ser tomadas como provocativas. Não há razão para tanto, a não ser que se tome por suficientes as respostas antecipadas acima; a não ser que se presuma que respostas ligeiras como estas possam esgotar o campo amplo e complexo de discussão que cada uma dessas perguntas inaugura. Para falar do óbvio, antes mesmo de chegarmos ao mérito do objeto em questão – aquilo que se assina como tradução –, não seria demasiado supor que uma pesquisa desenvolvida em uma perspectiva histórico-historiográfica (da tradução, ou de qualquer outro objeto) considerasse a necessidade de discutir minimamente a noção de história que fundamenta seu trabalho. E embora seja despropositado esperar que toda pesquisa nessa perspectiva atravesse longamente a complexidade das teorias da história, é razoável supor que mesmo um investimento mais pontual na discussão desse conceito, no horizonte dos interesses específicos de cada trabalho, possa evitar que tal esforço reflexivo se valha de uma visão desinformada, desatualizada ou pouco refletida dessa noção. 3 Até porque, como bem nos lembra Hans J. 1 Professor da Universidade Federal do Paraná / CNPq. E-mail: maumeluco@gmail.com. Professor de Teoria da Tradução no Bacharelado em Letras com ênfase nos Estudos da Tradução e no Programa de Pós-graduação em Letras da UFPR. Pesquisador do CNPq na área de teoria da tradução e da literatura. 2 Berman (2012, p. 13). Publicação póstuma de texto escrito em Paris, entre 1990 e 1991. 3 A esse propósito, Márcio Seligmann-Silva afirma: “[...] a teoria da tradução atual peca algumas vezes por uma visão histórica estreita. É claro que existem exceções – algumas ilustres como George Steiner