375 RASTROS, BRECHAS, DADOS: UMA POÉTICA A PARTIR DA INFORMAÇÃO Reno Beserra Almeida (Universidade Federal do Ceará) Cesar Augusto Baio Santos (Universidade Estadual de Campinas) INTRODUÇÃO Na atual sociedade informacional (CASTELLS, 1999), nossas experiências são, de maneira crescente, mediadas por dispositivos computacionais onipresentes. O conhecimento é traduzido em quantidades de informação e o próprio ser humano é decomposto em dados. Experiências de mundo WDQWR SHVVRDLV TXDQWR FROHWLYDV WRUQDPVH TXDQWLソFiYHLV ウ  HYHQWRV REMHWRV SURFHVVRV H SHVVRDV se tornam visíveis, cognoscíveis e compartilháveis de uma nova maneira” (ZUBOFF, 2018, p. 24), podendo ser armazenados e acessados, e o banco de dados emerge como a forma simbólica a partir da qual estas experiências (MANOVICH, 2001, p. 219). Dessa forma, o banco de dados assume uma perspectiva central nesta sociedade informacional. Por esta centralidade, os dados se tornam foco de diversos embates tecnopolíticos. De um lado, bancos de dados são, cada vez mais, utilizados como ferramenta para o exercício de diferentes for- mas de controle. De outro, diversos projetos surgem nos campos da arte e do ativismo, propondo um contraponto ao uso da informação como ferramenta de sujeição. O presente artigo tem por objetivo apresentar duas obras em elaboração, “Sala 109” e “Kafka no Facebook”, desdobramentos de um processo de criação artística em desenvolvimento, parte de uma pesquisa de mestrado em artes. Tais obras partem de perspectivas críticas do uso de banco de da- dos e propõe evidenciar uma lógica de controle no uso da informação, ao mesmo tempo que provoca cisões e outras sensibilidades e resistência criativa em torno dos dados. O BANCO DE DADOS ENTRE DIFERENTES FORMAS DE CONTROLE O banco de dados, como compreendido neste artigo, é, como sustenta Manovich (2001, p. 219), uma coleção estruturada de dados, na qual é possível pesquisar e recuperar tais informações através GR XVR GH XP FRPSXWDGRU 0DLV DLQGD SRGHVH DソUPDU TXH D SUySULD LQIRUPDomR DUPD]HQDGD QHVWHV bancos depende de dispositivos computacionais para ser gerada. Ainda que o banco de dados seja algo mais próprio à sociedade informacional, há formas pre- cursoras que se manifestaram ao longo de um prolongado período histórico. Na passagem do poder soberano, que causa a morte ou deixa viver (FOUCAULT, 1999, p. 128), ao biopoder, interessa ao Estado, mais que deixar os sujeitos governados entregues à própria sorte, intervir sobre os mesmos, administrar suas vidas, seja em um plano individual ou massivo. Importa LQWHJUDU RV LQGLYtGXRV DRV ウVLVWHPDV GH FRQWUROHV HソFD]HV H HFRQ{PLFRVエ LGHP S  WRUQiORV sujeitos úteis dentro de um processo produtivo. Isto se dá por meio da gestão da vida, “sua majoração, sua multiplicação, o exercício, sobre ela, de controles precisos e regulações de conjunto” (idem, p. 129). Para o exercício desse poder regulador sobre indivíduos, um conjunto de saberes e análises fo- ram desenvolvidos, os quais permitiram o aumento do conhecimento do Estado em diferentes dimen- sões e dados (idem, 2008, p. 134). Surge a “estatística como ciência de Estado” (idem), que consiste na coleta e organização sistemática de informações sobre cidadãos e fatos (HACKING, 1990 apud BRUNO, 2013, p. 149). A estatística torna-se componente determinante da “máquina burocrática”