Revista Crítica Histórica Ano III, nº 6, dezembro/2012 ISSN 2177-9961 “MULHERES DE VIDA LIVRE” E “FEITICEIRAS” NA IMPRENSA ALAGOANA: Representações Acerca da Participação Feminina na Vida Social no Começo do Século XX "WOMEN LIVING FREE" AND "WITCHES" IN THE ALAGOANA PRESS: About Representations of Women's Participation in Social Life at the Beginning of the Twentieth Century Ulisses Neves Rafael * Introito Este artigo visa realizar uma reflexão acerca das representações das mulheres negras em Alagoas a partir de documentação histórica, mais especificamente, dos jornais publicados no Estado entre os anos de 1900 e 1912, período este, escolhido por se tratar de um dos mais sintomáticos da história alagoana, o qual ficou conhecido como “Era dos Maltas” e que coincide com um dos momentos mais violentos de que foram vítimas as casas de culto religioso de natureza afro-brasileira e que ali convencionou-se chamar de xangô. Na verdade, durante o período em tela, os terreiros desfrutaram de relativa liberdade de culto, haja vista a baixa incidência de prisões envolvendo pessoas ligadas a tais práticas religiosas e as parcas notícias nos jornais de teor mais depreciativo. Em confronto com essa aparente tranquilidade, tem-se o “Quebra de 1912”, nome pelo qual ficou conhecida a devassa aos terreiros da capital e adjacências, e que implicou na destruição, em apenas uma semana, das mais tradicionais casas de culto locais. Em seu lugar restou aquilo que o médico pernambucano Gonçalves Fernandes denominou de “Candomblé em silêncio” para se referir a uma modalidade de culto exclusiva, que ele acompanhou na Maceió dos anos 30, cuja característica principal seria a supressão dos atabaques nos rituais religiosos. O tema já foi sobejamente explorado em outras ocasiões, razão pela qual não mais nos estenderemos nele (Rafael, 2012). Aceitando o desafio proposto pelos organizadores do IV Encontro Nacional de História: “História, racismo e religiosidades negras” e, inspirados pelo tema da mesa “Historiografia, Estudos e documentação sobre o Quebra de Xangô”, propomo-nos, inicialmente, a questionar e a justificar a pertinência da realização de uma reflexão em moldes antropológicos, que toma os documentos históricos como fonte. Posto de outra maneira: quais as possibilidades abertas ao antropólogo quando as condições materiais de investigação disponíveis escapam aos moldes convencionais do trabalho de campo preconizado por toda a tradição que remonta à Malinowski? Quando o campo são os arquivos e o deslocamento não implica uma passagem espacial, mas apenas temporal, como se desdobrar diante dos desafios que a nova empreitada nos lança? * Professor Associado da Universidade Federal de Sergipe.