DILEMAS: Revista de Estudos de Conflito e Controle Social – Rio de Janeiro – Reflexões na Pandemia 2020 – pp. 1-15 A gestão dos dados sobre a pandemia nas prisões: Uma comparação entre as práticas de ocultamento das secretarias de administração prisional do RJ e DF Camila Prando Universidade de Brasília, Brasília, DF, Brasil Rafael Godoi Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, Brasil gestão da pandemia de Covid-19 nas prisões convoca a atuação de inúmeros atores institucionais e da sociedade civil a se organizarem diante de novas demandas e antigas estruturas. Neste texto, pretendemos compreender comparativamente de que modo as autoridades penitenciárias do Rio de Janeiro e do Distrito Federal vêm organizando a produção e a divulgação de informações oficiais sobre a expansão do contágio da Covid-19 no interior das unidades prisionais. O recorte proposto não decorre apenas de nossas respectivas inserções institucionais. O Rio de Janeiro foi o primeiro estado a confirmar a morte em decorrência da doença de uma pessoa presa, em 17 de abril, e é o segundo estado com mais mortes no cárcere atribuídas à infecção; por sua vez, o Distrito Federal se destaca por abrigar o sistema penitenciário com o maior número de casos confirmados 1 . E para além da relevância de cada caso, o exercício comparativo aqui proposto nos parece particularmente interessante porque revela estratégias diversas de gestão de informações sobre a evolução da pandemia em contextos carcerários, sendo que tais estratégias comunicacionais são indissociáveis das políticas de diagnóstico e cuidado postas em prática (ou não) pelas autoridades penitenciárias em questão. Dados e métricas sobre a pandemia não são o resultado de um fenômeno da natureza que se transcreve objetivamente em números; são, antes, o produto de constantes negociações e disputas entre múltiplos atores institucionais e da sociedade civil, nas quais se definem o que se registrará ou não, como tais registros serão produzidos e divulgados, quem os acessará, quando e como esses diversos expedientes se darão. Importam, sobretudo, porque acionam modos de diagnosticar e intervir na expansão do contágio e provocam, por consequência, efeitos de produção e/ou violação de direitos 2 . Exploramos os diversos modos de gestão de informações da pandemia no cárcere a partir de duas estratégias metodológicas principais. Em um primeiro movimento, comparamos conteúdos e analisamos a evolução dos boletins informativos da Secretaria de Administração Penitenciária do Rio de Janeiro (Seap-RJ) e da Subsecretaria do Sistema Penitenciário do Distrito Federal (Sesipe-DF). Tais boletins materializam o discurso oficial a respeito da pandemia nas prisões em ambos os estados. O acompanhamento diacrônico de sua produção nos permite observar escolhas e modificações significativas nesses enquadramentos oficiais. Uma vez que os documentos de Estado são aqui entendidos como produto das relações de poder entre instituições 3 , em um segundo momento A REFLEXÕES NA PANDEMIA