301 Um perfl do Padre Cícero, a partir da antropologia da religião e da antropologia da política Marcelo Ayres Camurça Introdução Tentativas de defnição da personalidade do Padre Cícero sempre esbarram na complexidade do fenômeno que envolve sua pessoa e o contexto em que ele se projeta. Vou procurar abordar duas dimensões que me parecem ser constitutivas tanto da fgura do padre quanto dos eventos que ele protagonizou: a religião (popular) e a política. Em decorrência de meus estudos de alguns anos acerca do papel do Padre Cícero dentro de um enfoque histórico, antropológico e político (Camurça, 1984,1985/6, 1989, 1994), gostaria de refetir sobre juízos que se cristalizaram a partir de uma vasta literatura sobre o envolvimento do padre com a religião e a política. Esta literatura se caracterizou por conteúdos por vezes reducionistas, por vezes estanques, como se, ao passar do domínio da religião para o da política, houvesse necessariamente perda ou descaracterização. Imputar, de uma forma unilateral, ao Padre Cícero características de um “coronel”, ou “chefe oligárquico”, ou concluir que ele fcou “menos religioso” ao ingressar no mundo da política, de um lado, ou desconsiderar esta mudança na sua trajetória, frisando apenas sua faceta de “sacerdote rigoroso”, ou “beato”, não contribui para uma visão mais amplifcada do fenômeno em seus múltiplos aspectos. No entanto, seria ingênuo supor que, entre as dimensões da política (oligárquica) e da religião (popular), não haja contradições e níveis distintos que regulam a lógica interna de cada um desses dois domínios. Por outro lado, também seria ingênuo não considerar que esses dois mundos sempre se comunicaram ao longo da história das sociedades humanas. O êxito do Padre Cícero, a meu ver, foi ter sabido articular, com relativa efcácia, essas duas esferas e administrar todas as tensões que advieram disto.