O teatro de temática científica em foco 256 Vol. 43, N° 3, p. 256-268, AGOSTO 2019 Quím. nova esc. – São Paulo-SP, BR. ENSINO DE QUÍMICA EM FOCO A seção “Ensino de Química em Foco” inclui investigações sobre problemas no ensino de Química, com explicitação dos fundamentos teóricos, procedimentos metodológicos e discussão dos resultados. Recebido em 23/07/2019, aceito em 01/11/2019 Amadeu Moura Bego, Daniele Pereira Moraes, Vagner Antonio Moralles e Luciene Ruiz Baccini O reconhecimento de que visões distorcidas sobre a natureza da ciência se configuram como um obstáculo significativo para a melhoria no processo de ensino e aprendizagem de ciências fomentou o surgimento de pesquisas com o intuito tanto de mapeá-las como de trabalhá-las. Este artigo discute os impactos de uma intervenção, centrada na peça Oxigênio, sobre as visões distorcidas de estudantes do ensino médio de uma escola pública do Estado de São Paulo. A coleta de dados foi realizada a partir de questionários e grupos focais, e os dados gerados foram analisados por meio dos índices e níveis de tipicidade da Escala Likert e da Análise de Conteúdo. Os resultados evidenciaram mudanças expressivas nas visões socialmente neutra e individualista e elitista, porém as visões exclusivamente analíticas e empírico-indutivista e ateórica se apresentaram com caráter mais resistente. Por fim, as potencialidades e limitações didático-pedagógicas do teatro de temática científica foram ressaltadas. natureza da ciência, teatro de temática científica, visões distorcidas O teatro de temática científca em foco: impactos de uma O teatro de temática científca em foco: impactos de uma intervenção didático-pedagógica nas visões distorcidas intervenção didático-pedagógica nas visões distorcidas de alunos do ensino médio sobre a natureza da ciência de alunos do ensino médio sobre a natureza da ciência http://dx.doi.org/10.21577/0104-8899.20160208 D iversas pesquisas da área de Ensino de Ciências ao longo dos anos têm evidenciado que concepções equivocadas sobre a natureza da ciência (NdC) cons- tituem-se em obstáculo significativo para os processos de melhoria e inovação no ensino de ciências (Furió, 1994). Nessa perspectiva, Cachapuz e colaboradores (2005, p. 38) argumentam que a epistemologia da ciência não é de- vidamente retratada nas salas de aula, fazendo com que o processo de ensino formal contribua para desenvolver ou reforçar “visões empobrecidas e distorcidas que criam o desinteresse, quando não a rejeição, de muitos estudantes e se convertem num obstáculo para a aprendizagem”. Outra fonte desse tipo de visão, segundo Kosminsky e Giordan (2002), são os veículos de comunicação e de divulgação científica que, muitas vezes, não transmitem adequadamente a forma como se desenvolve o empreendimento científico. Moreira e Osterman (1993) alertam ainda que a divulgação de um “método científico” rígido nos livros didáticos também contribui para desenvolver uma série de visões distorcidas sobre o trabalho científico. Segundo McComas e colaboradores (2002, p. 4, tradução nossa), pode-se entender a NdC como: [...] uma fértil arena híbrida que combina aspectos de vários estudos sociais da ciência, incluindo histó- ria, sociologia e filosofia da ciência, combinados com pesquisas das ciências cognitivas, como a psicologia, em uma rica descrição do que é ciência, como fun- ciona, como os cientistas funcionam como um grupo social e como a própria sociedade direciona e reage aos esforços científicos. A NdC, então, refere-se aos conceitos acerca da cons- trução, estabelecimento e organização do conhecimento científico, bem como sobre o trabalho dos cientistas. Em um trabalho seminal, Gil-Pérez e colaboradores (2001) sumarizam as visões distorcidas sobre a NdC e o trabalho do cientista apresentadas por diversas pesquisas acadêmico-científicas, apontando sete classes de distorções, as quais se relacionam e se reforçam entre si: i) concepção empírico-indutivista e