10 Revista Trágica: estudos de filosofia da imanência, Rio de Janeiro, v.9 nº 3, p. 10-26, 2016 O cotidiano estético: considerações sobre a estetização do mundo Marcos Beccari Rogério de Almeida Resumo: Este artigo visa refletir sobre a estética contemporânea a partir de um prisma nietzscheano, tendo como foco principal o “estético” como dimensão que torna excessiva a vida, favorecendo sua afirmação. Tomando como ponto de partida a noção de estetização do mundo, tema das recentes obras de Gilles Lipovetsky e Jean Serroy (2015) e de Byung-Chul Han (2015), argumentamos que não houve propriamente uma estetização “de cima para baixo” (como se uma esfera transcendente tivesse sido profanada e esvaziada), e sim uma abertura horizontal a um cotidiano estético. Em seguida, recorremos a Nietzsche e outros pensadores no intuito de distinguir o termo “estético” da estética filosófica tradicional. Observamos, por fim, que cada vez mais é no cotidiano estético, especialmente sob a alcunha do “design” (como compreensão sensível das mediações simbólicas que nos perfazem), que a afirmação da vida aparece com maior vigor, como ensejo e finalidade para a experiência estética. Palavras-chave: estetização, estético, Nietzsche, estética do cotidiano. 1. Introdução A reflexão sobre uma “estetização do mundo” na sociedade contemporânea põe em relevo, de início, um impasse teórico: de um lado, à dimensão estética são atribuídos um alcance e uma importância cada vez maiores, abrangendo territórios que lhe eram tradicionalmente fechados; de outro, a estética enquanto disciplina filosófica, em seu dinamismo estrito, lento e cuidadoso, prossegue reinterpretando seus próprios princípios e fundamentos. Por um lado, avaliações “meramente estéticas” tomam o lugar dos critérios de verdade e dos julgamentos morais: a difusão da cosmética, do esporte e da moda mostra que a preocupação por um aspecto agradável é muito mais comum do que a apreciação pela salvação da alma ou pelas escolhas políticas. Por outro, a crítica cultural parece dar mais crédito às ciências históricas e sociais do que à estética filosófica, que assim se torna mais “tímida” e hermética, acabando também por renunciar a reflexões não orientadas à filosofia ou às artes. É como se, com relação a uma possível estetização da sociedade, a estética filosófica não tivesse mais nada a dizer – as pessoas já conhecem o peso adquirido pelos elementos Professor do Programa de Pós-Graduação em Design da UFPR. Doutor em Educação pela USP. E-mail: contato@marcosbeccari.com Professor Associado da Faculdade de Educação da USP, onde coordena o Lab_Arte e o GEIFEC. Livre- docente em Filosofia da Educação pela Faculdade de Educação da USP. E-mail: rogerioa@usp.br