CONTAR O PASSADO, CONFABULAR O PRESENTE: PERFORMANCES NARRATIVAS, POÉTICA E AS CONSTRUÇÕES DA HISTÓRIA Vânia Z. Cardoso Em festas em torno do dia 13 de maio e em rituais que acontecem durante todo o ano no espaço religioso dos terreiros e centros ao redor da cidade do Rio de Janeiro, o som de atabaques e de pontos cantados clamam pela chegada dos espíritos dos pretos velhos. Dentre os vários espíritos, conhecidos também por tantos outros nomes como entidades, guias, santos, etc., evocados em rituais religiosos afro-brasileiros, os pretos velhos são reconhecidos pelos conselhos que oferecem aos flhos de santo e clientes. Ouvindo confdências, compartilhando a feijoada das festas, dançando e trabalhando para curar seus flhos, os pretos velhos envolvem aqueles que lhes procuram na própria socialidade onde seus poderes de conceder proteção aos que dela necessitam ganham sentido e se tornam efcazes. Ser implicado nessa socialidade é também adentrar o emaranhado de uma constelação de memórias, de atos e de estórias. 1 Estórias sobre o passado, sobre marcas efêmeras da presença dos pretos velhos e inscrições de suas ausências, estas narrativas entremeiam os rituais e o cotidiano, e são elas mesmas entremeadas por outras estórias. Essas estórias são como traços do passado que se insinuam no presente através das performances do narrar. Tais estórias não estão enquadradas como eventos de performance de um narrador, e a poética local resiste à sua textualização enquanto estórias dissociadas da socialidade da performance narrativa. O contar de estórias sobre os pretos velhos não se deixa apreender em um sistema de narrativa histórica, mas se insinua por entre as frestas daquele sistema. Como a iluminação profana de que nos fala Walter Benjamin (1978), tais estórias interrompem o fuxo da história e produzem um espaço de tenso confabular. Nesse narrar não é uma (outra) verdade histórica que se constrói, mas fragmentos do passado e traços do presente, saturados 1 É no sentido de confabular que mantenho a grafa “estória” para me referir às narrativas dos pretos velhos, atentando, assim, não para um caráter imaginário, mas para a própria constituição do real através do narrar.