DILEMAS: Revista de Estudos de Conflito e Controle Social – Rio de Janeiro – Reflexões na Pandemia 2020 – pp. 1-19 Entre o ‘home office’ e a vida loka: O empreendedorismo popular na pandemia Henrique Costa Universidade Estadual de Campinas, Campinas, SP, Brasil Introdução omo se não bastassem as flexibilizações e a eliminação de direitos trabalhistas, a ascensão da robótica e da inteligência artificial a eliminar milhares de ocupações e o retorno da extrema direita, veio o vírus. A pandemia de Covid-19, que progressivamente alcançou o mundo todo, interrompeu fluxos financeiros, interpelou governantes e cientistas e implodiu as rotinas e os projetos de vida de literalmente bilhões de pessoas que se viram subitamente impedidas de trabalhar. Mais importante, o vírus não cessou de matar todos os dias desde que surgiu em Wuhan. No Brasil não foi diferente, mas com peculiaridades diretamente resultantes da ascensão de Jair Bolsonaro à presidência da República e da mutação do lulismo, cujos programas sociais de sucesso se mantêm mesmo após a queda de Dilma Rousseff e do Partido dos Trabalhadores (PT) em 2016 (cf. COSTA, 2018). O lulismo é uma narrativa maleável que, entre políticas públicas e alguma redução na desigualdade da renda do trabalho, pretendeu transformar a sociedade brasileira numa “nova classe média” e fez com que jovens trabalhadores precários das periferias, viradores em geral, pequenos empresários seguidores da teologia da prosperidade e moradores dos enclaves cosmopolitas altamente qualificados e deliberadamente sem vínculos formais fossem atirados numa mesma categoria, a dos empreendedores. Na situação-limite que se abateu com a pandemia, esse discurso dá mais um passo adiante, pois a precarização geral do mundo do trabalho se revela justamente na intensificação do teletrabalho, ainda que a experiência vivida dos trabalhadores continue distante, pois enquanto as classes populares temem pela subtração de sua renda, correm riscos de saúde mantendo suas atividades à revelia da lei ou recorrem ao auxílio estatal, outros em número muito menor podem “desfrutar” do home office 1 . No mundo do trabalho, o colapso, que não é novo, mostra agora sua face mais “democrática” de dessocialização pelo trabalho precário, atingindo outras ocupações outrora pouco vulneráveis aos seus impactos. Com a revolução tecnológica, o autogerenciamento assumiu formas ainda mais avançadas, especialmente na chamada gig economy e no trabalho mediado por plataformas digitais, fenômeno que ficou conhecido como uberização, mas cujo mecanismo remete aos “modos de subjetivação relacionados às formas contemporâneas de gestão do trabalho e ao neoliberalismo, que nos demandam uma compreensão do engajamento, responsabilização e C REFLEXÕES NA PANDEMIA