1 22 NOVEMBRO SESSÃO SIMULTÂNEA 5 – CROSSING BORDERS – HISTÓRIA, MATÉRIAS E TÉCNICAS ARTÍSTICAS No ateliê do pintor naturalista: espaços, equipamentos e materiais Ângela Ferraz Departamento de Conservação e Restauro, Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade Nova de Lisboa Leslie Carlyle REQUIMTE- CQFB Departamento de Conservação e Restauro, Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade Nova de Lisboa Rita Macedo Departamento de Conservação e Restauro, Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade Nova de Lisboa Instituto de História da Arte, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa O projeto interdisciplinar “Crossing Borders: História, Materiais e Técnicas de pintores portugueses, 1850-1918 (Romantismo, Naturalismo e Modernismo)” tem como objectivo perspectivar os artistas portugueses num contexto histórico e social comparando as suas práticas artísticas com as dos seus contemporâneos europeus. Neste projeto enquadra-se a investigação dedicada aos materiais e técnicas dos pintores naturalistas portugueses (1865-1932) sustentada por uma sistemática pesquisa documental. Espera-se assim contribuir para uma melhor caracterização da pintura do período naturalista. Cumprindo esse propósito, o estudo que aqui se apresenta, dedicado aos ateliês dos artistas naturalistas portugueses, mostrou-se bastante revelador das potencialidades das fontes documentais, analisadas sob a perspectiva do saber técnico e material, na construção de novas leituras que se creem fundamentais à História da Arte portuguesa. No âmbito deste estudo, procedeu-se ao levantamento de cerca de uma centena de imagens em pintura, fotografia e desenho. Estas imagens permitem-nos documentar os ateliês de mais de três dezenas de pintores naturalistas, entre os quais os de Silva Porto, Marques de Oliveira, Columbano, José Malhoa ou Artur Loureiro. Foi igualmente feito um levantamento de descrições destes espaços, tanto em monografias e biografias de artistas, como em textos de crítica de arte publicados na imprensa periódica. De modo a enquadrar a informação recolhida no contexto teórico da época analisaram-se manuais de pintura portugueses e estrangeiros. Os equipamentos e materiais identificados nos registos visuais foram confrontados com os catálogos de fornecedores, nomeadamente com os da casa inglesa Winsor & Newton. A ideia de ateliê de artista parece destoar no ideário do pintor naturalista que pinta diretamente perante a natureza. Porém, as imagens e os textos analisados demonstram-nos que este continua a ser o espaço nuclear da sua atividade. É no ateliê que se trabalha, se recebe e se mostra. «Casa-ateliê», «ateliê-escola», «ateliê-galeria», o espaço assume uma complementaridade de funções mais de acordo com as exigências dos novos tempos. E ninguém melhor do que Artur Loureiro soube implementar este conceito tão singular. Marcado pela sua vivência na Austrália e influenciado pela cultura britânica, o seu ateliê-escola no Palácio de Cristal, no Porto, impressionou pela novidade que trouxe ao nosso panorama artístico 1 . “Amplo e desafogado” este ateliê, decorado com uma sobriedade elegante, articulava inteligentemente os espaços de modo a acumular as funções de local de trabalho do artista, escola de pintura e espaço de exposição (fig. 1). 1 Machado, Soares, e Calém, Artur Loureiro 1853-1932, 20.