Dois Monumentos a Carlos Gomes na Primeira República Fanny Lopes 1 DOI 10.20396/eha.vi14.3416 Em 16 de setembro de 1896, a morte do compositor campineiro Antonio Carlos Gomes (1836- 1896), dava início a um dos episódios mais marcantes da primeira década republicana no Brasil. Os ritos fúnebres de Gomes, monumentais e públicos, desdobraram-se em diversas homenagens por todo o país. O músico faleceu no estado do Pará, mas o sepultamento seria em sua cidade na- tal, após pedido de ilustres de São Paulo, endossado pelo próprio presidente, Campos Salles (1841- 1913). O périplo de seu corpo prolongou o luto: cerimônias litúrgicas foram realizadas em Belém, no Rio de Janeiro e em Santos, antes que seu corpo seguisse em cortejo para Campinas, com mais alguns pontos de parada 2 . O culto cívico dos grandes homens era fundamental para a cultura liberal e nacionalista em construção na jovem república. A comoção em torno da morte do gênio artístico poderia servir de elo, apaziguando, mesmo que temporariamente, desavenças. Em uma crônica, Machado de Assis aaa: A maior das notícias para nós, a única nacional, não preciso dizer que é a morte de Car- los Gomes. O telégrafo no-la deu, tão pronto se fecharam os olhos do artista e deu mais a notícia do efeito produzido em todo aquele povo do Pará, desde o chefe do Estado até o mais singelo cidadão. A triste notícia era esperada – não sei se piedosamente desejada (...). Atentai, mais que tudo, para esse sentimento de unidade nacional, que a política pode aa  aa, a  a a aa  a,     aa  desacordos, sem contrastes de opinião. A dor aqui é brasileira 3 . Era evidente que os feitos de Carlos Gomes estariam sempre intrinsecamente ligados ao Império e a Pedro II, seu benemérito. Por isso, a sociedade republicana hesitou em apoiar o compositor, quando, adoentado e falido, buscava uma posição na capital ou em Campinas – o que 1 Daa  Ha,  a  . D. J C,  I  Fa  Ca Haa a Ua Eaa  Campinas. Bolsista CNPq. 2 Sobre o tema, foram publicados artigos frequentes desde o mês de julho quando se anuncia os seus problemas de saúde. Destaco: “Carlos Gomes”, in: O Paiz, Rio de Janeiro, 13 out 1896, p.1. Também a sequência de telegramas publicados no mesmo jornal, em 28 out 1896, p.1. Em um deles, lê-se: “Para avaliar a concorrência ao enterro de Carlos Gomes basta dizer que cada carro era alugado por 200$ e que se pagou por uma aa 100$ aa a a aa  . Qa   a a a  a...”. 3 Originalmente publicado na revista A Semana, 20 de setembro de 1896. ASSIS apud OLIVEIRA, Emerson D. G. de. Os últimos dias de Carlos Gomes: do mito gomesiano ao nascimento de um acervo. Revista CPC, São Paulo, n.4, maio/out. 2007, p.87-113.