A MÚSICA DE MATRIZ AFRICANA NA COMPOSIÇÃO DE UM HORIZONTE REVOLUCIONÁRIO EM BARRAVENTO Thiago Henrique Felício Universidade Federal do Paraná Este trabalho se propõe a análise de “Barravento” (Glauber Rocha, 1962), uma das obras clássicas que marcam o advento do “Cinema Novo Brasileiro”. Após trazermos algumas reflexões a partir da bibliografia disponível, iremos elaborar uma breve análise com enfoque na interação entre imagem e som, procurando pensar a música de matriz africana como fonte de significações. Considerou-se a hipótese de que este filme de Glauber Rocha pode ser enquadrado naquilo que o historiador Marcelo Ridente chamou de “estrutura de sentimento da brasilidade romântico - revolucionária”, ou seja, significados e valores que foram compartilhados por amplos setores de artistas e intelectuais brasileiros a partir do final dos anos de 1950, segundo os quais era preciso buscar nas raízes populares nacionais as bases para construir o futuro de uma revolução nacional modernizante. Assim, ao final, defendemos que a cultura afro- brasileira foi resgatada em “Barravento” de maneira a recuperar no passado uma cultura popular autêntica, mas sem que, com isso, houvesse uma dissociação em relação a utopias de construção de um futuro que vislumbrava um horizonte socialista. Palavras-chave: Barravento; Romantismo; Revolução. A problemática do misticismo Reconhecido como o primeiro longa-metragem de ficção dirigido por Glauber Rocha, Barravento (1962) é uma das grandes obras clássicas do cinema brasileiro. Ao lado de outros títulos de grandes diretores, tais como Nelson Pereira Santos, Carlos Diegues, Joaquim Pedro de Andrade, entre outros, marca o advento do Cinema Novo Brasileiro, movimento este que, por sua vez, é comumente elencado como um dos mais importantes da história do cinema mundial. A fábula do filme gira em torno do reencontro de Firmino com a sua comunidade de origem, uma aldeia de pescadores chamada de Buraquinho. O protagonista toma para si a missão de compelir essa comunidade a libertar-se da exploração e da resignação. Sua estratégia é a de alertar aos integrantes da aldeia para o mecanismo de dominação e de controle social que vem sendo exercido sobre eles através do misticismo religioso que, neste caso, é representado a partir de elementos presentes na cultura religiosa de origem afro-brasileira. No início do filme, há a projeção de um letreiro que parece querer alertar o espectador para o problema da alienação pela religião, como se pode ver no extrato que transcrevemos a seguir: No litoral da Bahia vivem os negros puxadores de "xaréu", cujos antepassados vieram escravos da África. Permanecem até hoje os cultos aos deuses africanos e todo esse povo é dominado por um misticismo trágico e fatalista. Aceitam a miséria, o analfabetismo e a exploração com a passividade característica daqueles que esperam o reino divino (...).