IMAGINÁRIOS DE GUERRA OU UMA ESTÉTICA MIGRANTE 1 Henrique Finco 2 Florianópolis, abril de 2013 1. O Cenário, ou a diegese dos documentários diretos O Cenário é a América Latina, suas fronteiras e suas periferias, locais onde se trava uma “guerra contra as drogas” e onde são produzidas inúmeras narrativas audiovisuais por equipes de televisão, por documentaristas e outros atores sociais. Considerando os filmes em si, como obras audiovisuais prontas a serem exibidas em uma tela, CAMPO é o que aparece na tela, o que o espectador vê concretamente, e EXTRA- CAMPO é o que, embora tenha relação com o que está sendo visto na tela, não é visto pelo espectador. Portanto, quando se fala em extra-campo, especialmente para filmes de ficção, fala-se de uma cenografia provável e, importante, de algo que a rigor não faz parte da diegese daquele filme específico; ou seja: não está contido no espaço onde a narrativa se desenvolve. Um exemplo clássico é quando uma personagem fala se dirigindo a uma das margens da tela (ou olha para uma das margens da tela): o espectador sabe que ela está olhando ou se dirigindo a algo ou alguém já visto ou ainda por ver. Para os filmes de ficção, como regra geral isto é apenas ilusão: o alguém a quem a personagem se dirige não está lá de fato, ou a paisagem (ou coisa) que pretensamente deveria estar localizada na direção do olhar da personagem, provavelmente não está lá. Mas aqui, temos um paradoxo lógico: se o extra-campo não está contido na narrativa, como explicar que ele faça parte da narrativa? Se em um plano as personagens A e B aparecem lado a lado e no plano seguinte aparece apenas a personagem B, em close, olhando para o lado onde pretensamente está a personagem A, se dirigindo a ela, às vezes a chamando pelo nome (já conhecido do espectador), é possível afirmar que a personagem A, naquela fração de tempo que dura o close apenas na personagem B, tenha deixado de fazer parte da narrativa? Evidentemente não se pode afirmar isto; muito pelo contrário. Assim, e para evitar confusão, acredito que seja melhor falar em ESPAÇO DIEGÉTICO, que seria o espaço que abrange TODOS os elementos que compõem o relato audiovisual, aí incluídos a trilha sonora e o extra-campo. Para os filmes ficcionais, como regra geral – ressalto – este espaço fora de campo é apenas ilusão, mesmo quando as locações acontecem fora de estúdio, pois todo o entorno do plano captado pela filmadora foi “ajeitado”, composto, remendado, iluminado de forma diferente, os sons foram isolados, etc, etc. Existe, porém, uma classe de filmes em que o extra-campo é de fato uma continuação física e temporal do campo: são os filmes documentários de um gênero muito específico: os que dispensam reconstituições históricas ou simulações cenográficas. Pertencem ao que se pode chamar uma tradição do cinema direto e do cine vérite, onde o representado corresponde 1 Artigo apresentado na palestra “Cinema de Fronteira”, durante o VII Congresso Internacional Roa Bastos: Estéticas Migrantes, que aconteceu na UFSC em abril de 2013. 2 Professor do Curso de Cinema da UFSC, graduado em Comunicação Social (UFRGS, 1984), Mestre em Antropologia Social (UFSC, 1996), Doutor em Literatura (UFSC, 2012).