In: Holanda, Karla (org). Mulheres de cinema. Rio de Janeiro, Numa: 2019. pp 373-388 1 Carolee Schneemann visita Jane Brakhage e Hortense Fiquet, essas adoráveis convidadas no domínio masculino Patrícia Mourão de Andrade Youth is a dream Where I go every night and wake up with just this little jumping bunch of arteries In my hand Anne Carson, “A Sudden Unspeakable Sweat Floweth Down My Skin” After all, cinema is an enormous masculine phantasm Delia Salvi, “Sois belle et tais toi” O cinem`a experimental estadunidense do pós-guerra consagrou, desde os seus primórdios, um lugar especial a três mulheres: as realizadoras Maya Deren e Marie Menken, e a colaboradora e companheira do cineasta Stan Brakhage, Jane (Wodening) Brakhage. À primeira, atribui-se o papel incontestável de pioneira de uma tradição de cinema pessoal que, a partir dos anos 1950, alteraria por inteiro o panorama cinematográfico vanguardista: seu filme, Meshes of the Afternoon, de 1943, é tido como o marco inaugural do cinema experimental norte-americano. Marie Menken foi incessantemente celebrada pelos dois principais nomes do cinema lírico e pessoal do experimental, Jonas Mekas e Brakhage, como a primeira inspiração para seus filmes – ambos reconhecem terem aprendido com ela o valor da forma breve, a atenção ao cotidiano e a câmera na mão, instável e impressionista. Em outra chave, Jane Brakhage, que nunca dirigiu um filme, mas apareceu em praticamente todos os de seu marido durante as quase três décadas de casamento, transformou-se, à medida que Brakhage era alçado ao lugar de herói romântico do cinema experimental, em musa inspiradora de uma geração de críticos. Fugindo ao costume, tão comum na história da arte, do reconhecimento tardio – quando não póstumo – de artistas mulheres que trabalharam silenciosamente e sem ser notadas por seus