revista ANTHROPOLÓGICAS Ano 24, 31(1): 220-248, 2020 As Violências das Práticas Empresariais: mineração, deslocamentos compulsórios e resistências no vale do Zambeze, Moçambique. Albino Jose Eusébio a A instalação do megaprojeto de exploração de carvão mineral pela multinacional brasileira Vale, na Bacia Carbonífera de Moatize, região do vale do Zambeze, região central de Moçambique, trans- formou o distrito de Moatize num campo de deslocamentos com- pulsórios, violências e conflitos sociais. No presente artigo, analisa- se as diversas formas de resistência desenvolvidas pelas populações compulsoriamente deslocadas, seus repertórios, demandas e im- plicações sociais. Advoga-se que as ações coletivas de reivindicação social protagonizadas por essas populações, que são na sua maioria populações rurais (camponeses, oleiros), não só denunciam as prá- ticas violentas, autoritárias e coloniais das empresas mineradoras e apresentam narrativas outras para uma reflexão crítica sobre a atual lógica de desenvolvimento em Moçambique, baseada na in- tensificação da exploração e exportação de commodities, como tam- bém tem a potencialidade de interferir positivamente na forma como vem se dando a expansão desenvolvimentista na região. Mineração, Megaprojetos, Deslocamentos compulsórios, Ações coletivas, Resistências, Moatize. O início do novo milênio foi marcado pelo aumento de grandes projetos de desenvolvimento, impulsionados por uma política gover- namental centrada na captação de grandes investimentos diretos es- trangeiros para exploração e exportação de commodities. Moçambique a Doutor em Sociologia e Antropologia pela UFPA. Pesquisador de Pós-Doutorado no IPPUR/UFRJ. Email: albinoeusebio@outlook.com; albino.acipol@gmail.com.