261 Dossiê: Patrimônio e Relações Internacionais As timbila de Moçambique no concerto das nações The timbila of Mozambique in the concert of nations Las timbila de Mozambique en el concierto de las naciones Sara S. Morais https://orcid.org/0000-0003-1490-1232 RESUMO: O artigo discute aspectos do processo de patrimonialização das “timbila chopes” de Moçambique que culminou com sua proclamação pelo Programa das Obras-Primas do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade da Unesco em 2005. Inspirada em análises sobre processos de objetificação e redução semântica implicados no reconhecimento oficial de expressões como patrimônio cultural, abordo elementos da trajetória histórica e social das timbila para compreender seu lugar no imaginário nacional e sua escolha como o primeiro bem cultural imaterial em Moçambique consagrado em arenas internacionais. Enfatizei no decorrer do texto diversos elementos que localizam esse país africano no âmbito das suas relações internacionais; por um lado, discuto algumas das dinâmicas perpetuadas pelo colonialismo, as quais possibilitaram a divulgação das timbila para além do território colonizado e, por outro, reflito sobre a relação de Moçambique com a Unesco, à luz da história política do país e de sua recepção em relação a certos critérios e entendimentos desse organismo internacional no que tange ao patrimônio imaterial. Por fim, destaco as interpretações dadas pelo Estado moçambicano aos ideais de participação social da Unesco e mostro como o dossiê produzido pelo governo moçambicano utilizou o critério de autenticidade em voga naquele momento para descrever e justificar a escolha das timbila. Agradeço a meus colegas e professoras do Laboratório de Etnologia em Contextos Africanos (ECOA) – Juliana Dias, Andrea Lobo, Francisco Miguel, Vinicius Venâncio, André Justino, Yuri Ferreira e Lara Noronha – da Universidade de Brasília (UnB) pela leitura atenta e pelas sugestões preciosas a uma versão anterior deste artigo. Rodrigo Ramassote leu o texto e, como sempre, contribuiu com criteriosas observações. Agradeço, ainda, aos pareceristas ad hoc da Revista Locus pelos comentários precisos e instigantes que me auxiliaram a reestruturar algumas partes do texto. A responsabilidade pela versão final, contudo, é de minha inteira responsabilidade. Doutora em antropologia social pelo Departamento de Antropologia da UnB. Antropóloga do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Realizou pesquisas em Moçambique sobre fluxos de moçambicanos que estudaram no Brasil e retornaram ao país de origem e, mais recentemente, sobre processos de formação da nação com foco na patrimonialização das timbila. Tem escrito artigos e capítulos de livros sobre esses temas e sobre patrimônio imaterial no Brasil e no continente africano. E-mail: sarasmorais@gmail.com