Repetidas vezes José Saramago veio declarar que Borges pertencia à sua «árvore genealógica literária», fundamentando esta escolha, a pedido de uma revista espanhola, com «porque inventou a literatura virtual». 1 Noutra altura, afirma «que o século XX tem três figuras que o exemplificam: o Kafka, o nosso Fernando Pessoa e o Borges». 2 Não obstante, o ‘efeito borgesiano’ na própria obra de Saramago ainda não mereceu muita atenção por parte dos estudiosos. Uma lacuna que surpreende, sobretudo perante o facto de haver uma dupla relação intertextual com Pessoa e Borges bem visível no romance que é consi- derado o melhor: O ano da morte de Ricardo Reis. 3 —————————— * Este texto nasce da nossa apresentação da temática «Borges em Saramago», em 22 de Março de 2000, no âmbito do projecto transdepartamental dedicado a Jorge Luís Borges, promovido pela Prof.ª Ana Gabriela Macedo. Uma segunda parte, dedicada à comparação das leituras que Borges e Saramago fazem do episódio de Ugolino no canto XXXIII do Inferno dantesco, apresentámos para o Congresso da APSA em Amherst, Massachusetts (Setembro de 2002; Actas no prelo). 1 Em Julho de 1996 (Cadernos de Lanzarote IV, Lisboa: Caminho, p. 179). No mesmo ano, em Setembro, Saramago participou no I.º Colóquio Internacional que lhe era dedi- cado, em Amherst (Massachusetts), utilizando este pedido de «árvore genealógica lite- rária» como base da sua intervenção final. Para além de Borges, o autor escolhe Luís de Camões, Padre António Vieira, Cervantes, Montaigne, Voltaire, Raul Brandão, Pessoa, Kafka, Eça de Queiroz e Gogol (ideia posteriormente retomada na entrevista de Fran- cisco José Viegas, 1998). 2 Saramago in Reis (1998: 69); o mesmo trio aparece em Viegas (1998: 34 f). 3 Citado conforme a edição Caminho, com a sigla Ano. DIACRÍTICA, CIÊNCIAS DA LITERATURA, n.º 17/3 (2003), 105-133 Borges em Saramago. O ano da morte de Ricardo Reis – romance policial sem enredo * ORLANDO A. A. GROSSEGESSE (DEG)