Revista de Divulgação Científica em Língua Portuguesa, Linguística e Literatura Ano 16 - n.26 2º semestre2020 ISSN 1807-5193 276 “SE EU QUISER COMER, EU VOU COMER”: CORPO, DISCURSO E RESISTÊNCIA Virginia Barbosa Lucena Caetano Mestra em Letras (UFPEL-RS), Pelotas, Brasil Luciana Iost Vinhas Doutora em Letras (UFRGS-RS), Porto Alegre, Brasil. Professora do Programa de Pós-graduação em Letras (UFPEL-RS), Pelotas, Brasil RESUMO: No presente trabalho, nos propomos a refletir sobre o ato de comer como efeito de um processo de subjetivação e, como tal, atravessado pelo funcionamento da ideologia e do inconsciente. Para tanto, utilizamos como corpus uma sequência discursiva recortada de um depoimento publicado pelo projeto Não tem Cabimento, no qual mulheres relatam episódios de gordofobia vividos. Partindo da compreensão de que a ideologia dominante regula, através dos discursos sobre saúde e estética, a forma como os sujeitos devem ser relacionar com a alimentação e, por consequência, com suas formas corporais, podemos compreender o ato de comer, no contexto em questão, isto é, praticado por uma mulher gorda, como uma forma de resistência, uma vez que comer passa a ser uma prática que aponta para um processo de contraideintificação com a formação discursiva dominante e os domínios de saber que ela organiza. PALAVRAS-CHAVE: Discurso. Comer. Resistência. ABSTRACT: In the present study, we have the objetive of reflecting on the act of eating as an effect of a subjectification process, and, as such, it is crossed by the functioning of the ideology and the unconsciousness. In order to do so, our corpus is a discursive sequence that was taken from a short narrative which was published on an online project called It Does Not Fit (Não tem Cabimento), in which women report situations of fatophobia that were lived by them. Understanding that the dominant ideology regulates the way the subjects must relate to food, and, in consequence, to their body shapes, and, also, that this regulation occurs through the discourses about health and aesthetics, we can understand that the act of eating, in the context in question, that is, practiced by a fat woman, is a way of resisting, since eating becomes a practice that points to a processo of counteridentification with the dominant discursive formation and the domains of knowledge that it organizes. KEYWORDS: Discourse. Eating. Resistance. INTRODUÇÃO Nunca, na história, fomos expostos a uma diversidade tão grande de possibilidades alimentares. Ao mesmo tempo, as normatizações sobre o comer de forma corretase