Formatos de improvisação musical à distância: relato de experiências vídeo-sonoras em tempos de isolamento Rogério Luiz Moraes Costa, 1 Ana Luisa Fridman 2 1 Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo-USP, Brasil 2 Instituto de Artes, Universidade Federal do Rio Grande do Sul-UFRGS, Brasil 1 rogercos@usp.br, 2 tempoqueleva@yahoo.com.br Resumo Este projeto partiu da ideia de dois docentes das áreas de improvisação e de percepção musical criando juntos situações em que fluxos entre estas áreas pudessem ocorrer e se retroalimentar. Observando estes fluxos intrínsecos entre a improvisação e a percepção, exploramos relações cognitivas externas e internas em relação aos ambientes e à corporeidade presentes em nossas pesquisas para criar meios que favorecessem, não só a auto-percepção, mas também a interação com o outro através de materiais musicais. Em nosso desejo de interação, marcado pelo período de isolamento gerado pela COVID-19, escolhemos a improvisação como forma de interação sonora, sendo que nossa questão central era como manter as relações que considerávamos mais essenciais nesta prática, mesmo à distância. O suporte visual, que aqui chamamos de interações vídeo-sonoras, fez com que surgisse uma necessidade natural do uso de elementos gestuais e relativos à corporeidade dos instrumentistas. Utilizamos também outros materiais sonoros além de nossos instrumentos, tais como a voz, a água, utensílios domésticos e elementos percussivos. A principal contribuição deste projeto foi a criação de propostas de improvisação musical adaptadas à situação de isolamento e distanciamento e com grande potencial de aplicação em situações pedagógicas. O formato virtual mostrou alternativas que provavelmente não seriam exploradas pela via presencial, apontando para a possibilidade de experimentos híbridos entre as vias presencial e virtual a partir da improvisação musical. O caminho que percorremos mostrou-se aberto, permeável e passível de continuidade. Palavras-chave: processos criativos, improvisação, performance, cognição musical INTRODUÇÃO A prática da improvisação pressupõe uma abordagem específica com relação à construção do conhecimento e ao agenciamento da performance. De um ponto de vista abrangente pode-se dizer que a improvisação se fundamenta em uma atitude radicalmente construtivista, baseada na prática empírica, criativa e experimental – muitas vezes coletiva e interativa – e no pressuposto de que a criação musical envolve a ação e o pensamento. Neste sentido a improvisação pode ser pensada em suas dimensões perceptivas e cognitivas enquanto uma ferramenta para a construção do conhecimento, da escuta e das habilidades que fundamentam e possibilitam a prática musical. Num contexto que privilegia os fluxos de troca em ambientes diversos, o desenvolvimento da percepção – que leva à ação e à reação em momentos de performance – pode ser integrado nos processos criativos como um elemento constituinte. Isto porque, a forma pela qual o sujeito constrói a sua percepção condiciona a estruturação de seu pensamento musical. Assim, a percepção musical, vista enquanto parte do processo de cognição dentro de ambientes de performance, pode ser gradativamente configurada e se construir no contato efetivo do sujeito com o fazer musical, seja este ouvir, tocar, criar ou interpretar. Sob este ponto de vista, seja num âmbito pedagógico ou de performance, a improvisação pode ser um meio privilegiado para promover este tipo de estratégia. Isto porque, na medida em que se trata de uma prática que se coloca em ação enquanto exercício criativo, este pode ser também colocado a serviço da configuração das estruturas cognitivas. Estabelecendo um fluxo contínuo e de trocas entre a improvisação e a percepção também dentro de contextos formativos, observamos que, nos cursos de graduação em Música, muito se discute acerca do repertório utilizado nos estudos da percepção musical, apontando para a necessidade de se ampliar os materiais existentes (Bhering, 2003) e envolver práticas criativas como a improvisação no processo perceptivo (Costa, 2008). Na grade curricular dos cursos de graduação em Música, por exemplo, as aulas de percepção musical são comumente pensadas para trabalhar a acuidade auditiva, desenvolver a fluência na leitura musical, estudar estruturas escalares e rítmicas, entre outros materiais de expressão sonora.