Elementos do trágico em Eça de Queirós. A Tragédia da Rua dos Flores e Os Maias de Luciana Ferreira Leal Orlando Grossegesse UNIVERSIDADE DO MINHO O elemento do incesto tem suscitado em todos os estudos sobre Os Maias o interesse dos críticos, nomeadamente a questão da sua inserção num romance de grande fôlego, mais centrado na representação da alta socie- dade lisboeta. A partir de 1980, com a publicação de A tragédia da Rua das Flo- res baseada nos manuscritos que Eça deixara, (surgiram várias edições sem grande rigor filológico), ficou aberta a porta para estudos que comparam este esboço de romance com a obra posterior Os Maias, no intuito de – através da análise comparativa – lançar luz sobre o processo evolutivo da escrita e con- tribuir assim para desvendar o(s) significado(s) do incesto. O livro de Luciana Ferreira Leal (São Paulo: Ed. UNESP, 2014, 276 pp), com base numa tese de doutoramento, pertence a esta linha de investigação, já anteriormente trilhada por Beatriz Berrini (1990), Lucette Petit (1990), Enrico Martines (2002), entre outros. O título fala de “elementos trágicos”, partindo do pressuposto que o incesto requer um tratamento de acordo com as catego- rias da tragédia clássica (p. 78). É precisamente o que está em causa: “Se em A tragédia da Rua das Flores, o reconhecimento do incesto é ponto climático e desfe- cho do enredo e em Os Maias não, isso pode significar que um é mais trágico, ou aproxima-se mais do trágico do que o outro”, concluindo mais adiante: “Mas o essencial em Os Maias parece ser a impossibilidade de tragédia em Portugal, evidenciada pelo fato de que nada ali se castiga, nem aniquila, nem mesmo a transgressão do mais básico dos tabus” (p.253). Esta visão de Os Maias como “tragédia frustrada ou malograda” (ibidem) abre o campo para leituras simbóli-